No nosso cotidiano, costumamos julgar as pessoas que convivem conosco a partir de como funciona a nossa interação com elas. Ou seja, se somos muito próximos ou amigos, podemos dizer que tal pessoa é um amor, super amiga, compreensiva, presente e etc. Já se nossa convivência é mais desafiadora, podemos descrever como: fulano é muito difícil, tem a personalidade muito forte, é intransigente e etc.
Na nossa prática clínica, por vezes, podemos ouvir um relato similar, no qual trazemos narrativas em que determinados pacientes são “mais difíceis, mais resistentes, mais insistentes, mais inflexíveis”.
Então, queria trazer 3 questionamentos para você terapeuta, afim de que possa refletir acerca de sua condução clínica.
1. Como você descreveria um paciente difícil para você?
Não basta categorizar o paciente e se colocar fora dessa equação. É preciso saber descrever quais comportamentos emitidos pelo paciente (dentro ou fora de sessão) lhe são desconfortáveis ou inconvenientes.
Seria seu modo de falar? Ou de não falar?
Seu modo de se comportar em sessão? Ou fora de sessão?
Seria uma postura não colaborativa? Ou confrontativa?
Fica aqui o meu convite para que você pare e escreva os seus critérios, aquilo que para você é mais sensível ou difícil. Isso não significa que você não lidará mais com isso na sua clínica, mas lhe trará mais consciência daquilo que é mais desafiador para você.
Afinal, “mesmo com um terapeuta profissional de boa formação, dedicado e atencioso, as coisas podem não funcionar” (Fletcher, 2024, pág. 246).
2. Como você lidaria com uma pessoa, na sua vida pessoal, que tivesse características semelhantes a desse paciente que lhe parece desafiador?
Obviamente haverá diferença nos dois contextos, porém, trago esse questionamento para que você possa refletir qual seria o seu comportamento. Se na primeira pergunta o foco era olhar e descrever o comportamento do outro, nessa o convite é para que você possa olhar e descrever o seu comportamento, com suas habilidades e fragilidades.
3. Quais habilidades você precisaria desenvolver para lidar melhor com pacientes com esse perfil?
Não se trata de dizer que você, para ser um bom profissional tem que “aguentar firme”. Definitivamente não. É uma relação, e como tal, precisa encontrar limites, inclusive por parte do terapeuta. Porém, o nosso trabalho nos convoca a continuamente ampliarmos o nosso repertorio, pois os casos, as queixas e os desafios vão se apresentando de formas diferentes.
A minha mensagem central é: “às vezes, a relação terapêutica entre duas pessoas simplesmente não funciona, e não é culpa de ninguém” (Fletcher, 2024, pág. 247). Portanto, quanto mais consciente você estiver das suas fragilidades e potencialidades, em melhores condições você estará de descrever o desafio que se apresenta com um paciente em específico e como pretende lidar com ele.
Referências Bibliográficas
Fletcher, J. (2024). E como você se sente em relação a isso? Tudo que você nunca quis saber sobre terapia. Rio de Janeiro: Sextante
Hayes, S.C., Strosahl, K.D. & Wilson, K.G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso – o processo e a prática da mudança consciente. Porto Alegre: Artmed

