“Quero parar de me sentir assim” é provavelmente uma frase que você já ouviu ou mesmo já se pegou dizendo. A busca por alívio do sofrimento é bastante compreensível; é coerente com os princípios comportamentais. No entanto, sentir é uma ação não deliberada, determinada por aspectos ontogenéticos, mas também filogenéticos e culturais.
Pense no conjunto carro-e-motorista: uma estrutura composta por sistemas – de propulsão, direção, freios, suspensão, alimentação, arrefecimento, elétricos e de climatização – que responde tanto às condições externas quanto às modificações internas que ocorrem ao longo dos trajetos. Analogamente, nós somos organismos arranjados por sistemas – nervoso, endócrino, cardiovascular, respiratório, digestivo, urinário, imunológico, linfático, tegumentar, musculoesquelético e reprodutor –, respondemos às experiências e somos transformados por elas. Mas, diferente do conjunto carro-e-motorista, que conta com um número estrito de habilidades para lidar com a direção, nós, organismos, aprendemos uma infinidade de respostas para lidar com a vida.
Esse repertório é o que nos possibilita, por exemplo, responder com enfrentamento e aproximação em situações aversivas, ao invés de fuga-esquiva. Podemos enfrentar uma grande carga de ansiedade por falar em público com habilidades de respiração, regulação da atenção, desfusão de pensamentos e contato com valores; também podemos reagir à dominadora sensação de desânimo e isolamento com respostas de automonitoramento, resolução de problemas e engajamento em contingências sociais. Afinal, as emoções são tanto ações biológicas quanto comportamentais. E são, também, determinadas culturalmente.
Na Análise do Comportamento, entende-se que o contato com eventos privados é modelado por contingências verbais, portanto sociais, que ensinam o indivíduo a discriminar, nomear e agir diante do que sente. Sentir raiva, medo, tristeza ou alegria é, também, um modo de agir, influenciado pela história de reforçamento e pelas práticas culturais a que o indivíduo está exposto. Nas terapias contextuais, compreende-se que grande parte do sofrimento humano decorre não da experiência direta, mas das relações arbitrárias estabelecidas entre eventos internos e funções aversivas que essas relações adquirem. Ao aprendermos a relacionar pensamentos, sensações e sentimentos por meio de regras verbais, construímos redes de significação que podem tanto restringir quanto ampliar nosso comportamento. Por exemplo, o pensamento “se estou ansioso, algo ruim vai acontecer” transforma a ansiedade – uma experiência transitória – em um sinal de ameaça que exige monitoramento constante.
As respostas relacionais são estabelecidas historicamente e não dependem de contato direto com as contingências. Assim, a cognição humana pode evocar respostas comportamentais tão reais quanto eventos externos. E é justamente nesse ponto que a linguagem, embora facilite a evitação experiencial e a rigidez comportamental, também pode ser usada a nosso favor. O sofrimento emocional não se mantém apenas pelo que se sente, mas pelo que se atribui funcionalmente ao que se sente; por isso podemos aprender a reconhecer, flexibilizar e ampliar as relações verbais que sustentam o sofrimento. Desengajar-se dos padrões de esquiva depende da aquisição de outros padrões, de variabilidade comportamental: de aprender as habilidades necessárias às contingências vigentes.
Como parte do social, o comportamento do terapeuta modela abertura, validação e disposição para sentir, colocando a pessoa em contato com as contingências naturais, incluindo seu corpo. Por isso é importante que o terapeuta tenha uma participação ativa, criando um ambiente para que o comportamento de intimidade seja evocado, desenvolvido e reforçado. Sentir é um modo de estar em contato com o ambiente, com a nossa história e com o nosso próprio corpo. O sofrimento é parte da condição humana, e não seu fracasso; afinal, a saúde mental não é bem caracterizada pela ausência de sofrimento, mas pela experiência de uma vida significativa, da manutenção de círculos virtuosos, que demandam da gente aprendizagens e engajamento.
Referências
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Terapia de aceitação e compromisso: O processo e a prática da mudança consciente (R. H. Souza, Trad.). Artmed.
Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001). Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. Kluwer Academic/Plenum Publishers.

