Práticas culturais: é possível estudá-las em laboratório?

Práticas culturais: é possível estudá-las em laboratório? 17Na Psicologia, muitos dizem ser impossível desvendar os mistérios da mente através do método científico – devido à própria natureza deste objeto. Se há quem aposte nisso, o que diriam então sobre o estudo científico de uma cultura, das diversas práticas que a compõem e seus produtos resultantes? Segundo o antropólogo Marvin Harris (1978, p. 13), “os especialistas se empenham em demonstrar que nem a ciência nem a razão podem explicar as variações de estilos de vida da humanidade”. Embora parte importante da obra de Skinner trate do tema, houve décadas sem produção significativa. No entanto, a partir dos conceitos de cultura e metacontingências propostos por Glenn (1986, 2004), finalmente os analistas do comportamento têm voltado sua atenção para o assunto. E o melhor de tudo: não só conceitualmente, mas também experimentalmente.
Práticas culturais: é possível estudá-las em laboratório? 19Pode-se definir de forma sucinta uma cultura como “padrões de comportamento aprendido transmitidos socialmente e também os produtos deste comportamento (objetos, tecnologias, organizações etc.)” (GLENN, 2004). Quanto a sua possível unidade de análise, a metacontingência, no lugar de serem selecionados propriamente comportamentos individuais, são selecionadas certas contingências entre duas pessoas ou mais (contingências comportamentais entrelaçadas ou CCEs) – interações que funcionam como uma unidade integrada, permitindo modificar o mundo de uma maneira que dificilmente ou até mesmo não seria possível para um único indivíduo, gerando e definindo, assim, um produto cultural (produto agregado ou PA). Assim, o comportamento de cada pessoa exerce um duplo papel: de ação e de ambiente comportamental para a ação de outrem (GLENN apud GADELHA, 2010). Além disso, tais interações e PA surgem, modificam-se ou permanecem inalterados (ou seja, são selecionados) por suas conseqüências relevantes para o grupo. Com a ocorrência de um PA e a recorrência sistemática da CCE devido a conseqüências culturais, fala-se então em seleção (GADELHA, 2010).
Práticas culturais: é possível estudá-las em laboratório? 21Faz-se necessário ainda diferenciar metacontingências de macrocontingências. Se em uma metacontingência a conseqüência social é crucial para a sua seleção, em uma macrocontingência há a relação entre uma prática cultural e a soma agregada das consequencias do comportamento recorrente de cada pessoa, que, por sua vez, são mantidos (ou modificados) por seus efeitos para cada indivíduo – e não para o grupo. Por exemplo, ao falarmos do macrocomportamento de “dirigir para o trabalho”, a função entre dirigir e as conseqüências operantes do comportamento de cada pessoa é o que a mantém comportando-se dessa maneira recorrentemente. Por outro lado, milhões de pessoas dirigem com inúmeras funções, o que gera um efeito cumulativo (e.g., trânsito congestionado, poluição etc.) que não é contingenge ao comportamento de nenhum motorista, mas sim ao macrocomportamento da prática cultural (GLENN, 2004).
Há quem possa levantar as seguintes questões: Ok, aqui temos um conceito para definir práticas culturais, mas em que isso nos ajuda? E mesmo assim, como estudar uma prática cultural experimentalmente? A produção em análise experimental da cultura surgiu e tem crescido nos últimos anos, a exemplo de estudos como o de Vichi (2004), Martone (2008), Baia (2008), Nogueira, C. (2009), Andreozzi (2009), Bullerjhan (2009), Caldas (2009), Leite (2009), Oda (2009), Costa (2009), Nogueira, E. (2010), Lopes (2010), Gadelha (2010) e Silva (2011), entre outros, que vêm demonstrando ser possível o desenvolvimento de análogos experimentais de metacontingências e práticas culturais. Os experimentos, de maneira geral, são feitos com pequenos grupos (geralmente de duas a quatro pessoas), sendo compostos por estudantes universitários voluntários. É proposto um jogo ou resolução de problemas individualmente (comportamento operante) e/ou em grupo (CCE). No caso das CCEs, a conseqüência cultural e o produto agregado dependem não do efeito cumulativo das respostas individuais, mas sim do comportamento inter-relacionado dos participantes (GLENN, 2004). Como conseqüência cultural se utilizava fichas (ou bônus) que seriam posteriormente trocadas por dinheiro e o produto agregado variava de experimento a experimento (dependia da tarefa realizada).
No trabalho de Gadelha (2010), e. g., voltado para os estudo das conseqüências culturais, foi desenvolvida uma atividade, onde pontos eram a consequência individual para fazer somas com resultados ímpares; uma CCE possível consistia em os dois participantes realizarem somas, de modo que o resultado do Participante 2 fosse o quadrado do resultado do Participante 1, que constituía o produto agregado (ΣP1 = (ΣP2)²), e a consequência desta CCE era a produção de uma grande quantidade de bônus distribuída igualitariamente entre ambos. Os participantes eram substituídos por outros sem experiência anterior com a atividade, de tempos em tempos, para a verificação da transmissão da prática por sucessivas gerações. Os resultados indicam que foi possível estabelecer uma CCE em laboratório, sendo transmitida para novas gerações (o que define uma prática cultural).
Práticas culturais: é possível estudá-las em laboratório? 23No estudo de Nogueira, E. (2010), utilizou-se a Teoria dos Jogos e, especificamente a situação do Dilema dos Comuns – “há um recurso comum para o qual várias pessoas podem ter acesso” (NOGUEIRA, 2010, p. 15), onde o dilema ocorre entre o ganho individual em curto prazo e o ganho comum em longo prazo. A autora investigou os conceitos de macrocontingências e metacontingências, além dos efeitos de uma intervenção cultural em uma situação onde o ganho individual poderia diminuir drasticamente ou extinguir o recurso comum. O objetivo era intervir em escolhas individuais (macrocomportamento), além de aumentar a interação verbal entre os participantes (intervenção cultural), procurando resultar na produção de CCEs (modificação da prática). Era apresentado aos três participantes um cenário onde havia um tanque com 100 peixes disponíveis, os quais poderiam ser “pescados” através de mini-cartões (que possibilitavam a retirada de 2, 4 ou 6 peixes). Os animais que ficassem reproduziam-se e a nova quantidade era informada. Se, ao final de uma condição, sobrassem peixes, eles seriam divididos igualmente entre os participantes – e cada peixe era trocado por uma quantia de R$ 0,03. Quanto maior a retirada e ganho individual, maior a diminuição na quantidade. Na linha de base, não havia conversa e os participantes não sabiam das escolhas de outrem. Nas condições seguintes, tiveram acesso a esses valores e o diálogo passou a ser permitido a cada duas escolhas. Os resultados indicam que o reajuste na quantidade de peixes teve função de conseqüência cultural externa para CCEs e PA (total de peixes). Nos grupos sem conversa (linha de base), houve esgotamento de recursos. Onde foi permitida a interação verbal, em que outro entrelaçamento das escolhas, os recursos aumentaram, mesmo com a retirada da condição (interação verbal), demonstrando que foi possível alterar a prática cultural, ou seja, que a intervenção foi efetiva – evitando o esgotamento total do recurso.
Os estudos supracitados foram explanados de maneira sucinta, não abarcando todos os resultados e análises possíveis diante dos dados obtidos em ambos. Porém, servem-nos como uma visão geral de como uma prática cultural pode ser estudada em laboratório. Mesmo assim, há quem questione a utilidade de tais experimentos – questionamento comum aos que produzem pesquisa básica em geral. Segundo Selltiz, Wrightsman e Cook (1987) existem três razões básicas para aprender métodos de pesquisa e praticar ciência: adquirir a capacidade de predizer como pessoas e nações se comportarão; entender como funciona o mundo social (descobrindo relações causais); e aprender a controlar os eventos. Aqui chegamos ao ponto do planejamento cultural! Para sermos capazes de planejar práticas efetivas, devemos entender como funcionam e o laboratório nos dá uma importante base para isso. Os analistas do comportamento podem ainda não ser capazes de realizar um planejamento cultural conforme se depreende da obra skinneriana “Ciência e Comportamento Humano”: “propor uma mudança em prática cultural, fazer a mudança e aceitar o mudado” (p. 464, 2003), mas, sem dúvidas, estão sendo dados os primeiros passos rumo a esta direção.
Bibliografia:
Andreozzi, T. C. (2009). Regras de controle tecnológico e de controle cerimonial: efeitos sobre práticas culturais de microssociedades experimentais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.
Baia, F. H. (2008). Microssociedades no Laboratório: o efeito de conseqüências ambientais externas sobre as contingências comportamentais entrelaçadas e seus produtos culturais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.
Bullerjhann, P. B. (2009). Análogos experimentais de evolução cultural: o efeito das consequências culturais. Dissertação de Mestrado. PUC-SP, São Paulo.
Caldas, R. A. (2009). Análogos experimentais de seleção e extinção de metacontingências. Dissertação de Mestrado. PUC-SP, São Paulo.
Costa, D. C. (2009). Dilema do prisioneiro: efeitos das consequências individuais e culturais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.
Gadelha, T. C. (2010). Evolução cultural em análogos experimentais de metacontingências: seleção de diferentes produtos agregados. Dissertação de Mestrado, PUC – SP, São Paulo.
Glenn, S. S. (2004). Individual behavior, culture and social change. The Behavior Analyst, 27 (2), 133-151.
Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.
Harris, M. (1978). Vacas, porcos, guerras e bruxas: os enigmas da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 13-16.
Leite, F. L. (2009). Efeitos de instruções e história experimental sobre a transmissão de práticas de escolha em microculturas de laboratório. Dissertação de Mestrado. UFPA, Belém.
Lopes (2010). Um análogo experimental de uma prática cultural: efeitos de um produto agregado contingente, mas não contíguo, sobre uma contingência de reforçamento entrelaçada. Dissertação de Mestrado. UFPA, Belém.
Martone, R. C. (2008). Efeitos de conseqüências externas e de mudanças na constituição do grupo sobre a distribuição dos ganhos em uma metacontingência experimental. Tese de Doutorado. Universidade de Brasília, Brasília.
Nogueira, C. P. V. (2009). Seleção de diferentes culturantes no Dilema do Prisioneiro: efeito da interação entre a cosequência cultural, escolhas simultâneas e a comunicação. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.
Nogueira, E. (2010). De macrocontingências à metacontingências no jogo Dilema dos Comuns. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.
Oda, L. V. (2009). Investigação das interações verbais em um análogo experimental de metacontingência. 2009. Dissertação de Mestrado, PUC – SP, São Paulo.
Selltiz, C., Wrightsman, L., & Cook, S. (1987). Explorando o mundo social. In: Kidder, L. H. (Org.). Métodos de Pesquisa nas Relações Sociais (vol. 1, ed. 4, pp.1-10). EPU: São Paulo.
Silva, N. C. S. (2011). Custo da resposta no jogo Dilema dos Comuns: análogo experimental de macrocontingências. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.
Skinner, B. F. (2003) Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes. 
Vichi, C. (2004). Igualdade ou desigualdade em pequeno grupo: Um análogo experimental de manipulação de uma prática cultural. Dissertação de Mestrado, PUC – SP, São Paulo.
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Escrito por Júlia Ferraz

Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF. Fez iniciação científica pelo PIVIC: “Efeitos do Controle Verbal em Microculturas Experimentais”; organização dos Encontros de Análise do Comportamento do Vale do São Francisco; monitoria na disciplina de Análise Experimental do Comportamento; está na Liga Acadêmica de Análise do Comportamento do Vale do São Francisco (LAAC-VASF) e é uma das organizadoras do Grupo de Estudos vinculado à Liga.