A contingência

Alguns leitores do Comporte-se têm me enviado emails pedindo que eu escrevesse um texto sobre um dos conceitos mais utilizados da Análise do Comportamento, o conceito de contingência e o porquê desse conceito ser tão importante dentro da abordagem analítico comportamental.
Como o Analista do Comportamento trabalha buscando compreender e intervir sobre as relações funcionais entre eventos, ele precisa de uma ferramenta que permita com que elas sejam descritas e explicadas de modo simples e claro, e uma das melhores ferramentas disponíveis para isso, é a Análise Funcional. A Análise Funcional é feita por meio da observação e esquematização da tríplice contingência, ou simplesmente, contingência.
Quando falamos em Tríplice Contingência, estamos falando de uma relação de interdependência entre estímulos e respostas, relação esta na qual um estímulo consequente a uma classe de respostas altera a probabilidade de emissão desta mesma classe de respostas no futuro em uma situação semelhante.
A Tríplice Contingência é a representação gráfica sobre como determinados comportamentos estão relacionados. É a formula usada pela Análise do Comportamento para estudar e entender como estes comportamentos se relacionam com os estímulos que os antecedem e com os estímulos que a eles se seguem.
Antes de qualquer coisa, é preciso diferenciar respostas (R) de comportamento (Sd – R – Sr+).
Resposta, quando falamos em comportamento operante, pode ser definida como tudo que é eliciado por um estímulo antecedente (que pode ser contextual, discriminativo, evocativo etc…) e produz uma conseqüência (reforço positivo, negativo, punição positiva ou negativa).
Comportamento é a relação entre estímulos antecedentes e conseqüentes a uma resposta É a relação entre todos os termos da contingência, inclusive a resposta.
Segundo Souza (2001, p.85), “o enunciado de uma contingência é feito em forma de afirmações do tipo se…, então” ou seja, podemos dizer como exemplo, se eu fizer X então vai acontecer Y.
No desenho abaixo podemos ver claramente um evento contingêncial.




O que acontece no desenho é algo bem comum para a maioria das mulheres. Mas será que é culpa do homem que tal comportamento foi modelado e mantido ?
Algumas operações acontecem quando uma resposta é emitida. Vamos analisar o caso.
O contexto do desenho parece ser de uma discussão entre um marido e sua esposa. A impressão é que a esposa está dando uma bela bronca, pois o marido joga as suas cuecas sujas no chão e em qualquer lugar da casa.
O homem fez uma pergunta muito pertinente: se as cuecas dele ao serem jogadas no chão aparecem limpas na gaveta, qual é o motivo para que ele jogue no cesto ?
Veja que a resposta de jogar a cueca em qualquer lugar foi reforçada positivamente pela esposa, pois a mesma a pegava, lavava e ainda guardava na gaveta. Uma contingência reforçadora foi criada fortalecendo a resposta de jogar a cueca no chão.
Graficamente, podemos colocar a contingência como:

Esses sinais apenas significam que dado um estímulo discriminativo (Sd), uma resposta ocorreu e essa resposta gerou uma conseqüência reforçadora. Essa conseqüência reforçadora ( Sr+ ) retroage na resposta de forma que a probabilidade de emissão de uma nova resposta parecida com ela seja maior. Para toda essa relação, se da o nome de contingência.

Vamos colocar esse conceito no desenho. O estímulo antecedente ou o contexto onde a resposta ocorre poderia ser, por exemplo, a hora do banho. Com esse contexto específico o marido tira a cueca e joga no chão, e logo em seguida, a mulher vem, pega a cueca suja, lava e ainda coloca na gaveta. Ao fazer isso, a mulher está dizendo ao marido: se você jogar a cueca suja no chão, ela vai aparecer limpa na sua gaveta.

No caso vamos pensar assim, se eu jogo a cueca suja no chão, então eu a tenho limpa na gaveta.

O que a mulher fez foi criar uma contingência reforçadora positiva para que o marido jogue a cueca no chão.
A esposa provavelmente descreve o marido como porco, ou muito folgado (e outros adjetivos não tão amigáveis). Porem o marido aprendeu a ser assim sendo modelado em função da contingência.

Dessa forma, no desenho usado como exemplo a esposa que está dando uma bronca no marido é diretamente responsável pelo comportamento de jogar cuecas sujas no chão. O comportamento que a esposa quer eliminar pode não ter sido criado na atual contingência, mas com certeza está sendo mantido por ela.

A contingência não é apenas o evento reforçador, mas todo o sistema que mostra como ou por que uma resposta foi dada, como se formaram repertórios comportamentais e como tais repertórios se mantêm no presente.

Em um próximo texto estaremos explorando mais outros conceitos da Análise do Comportamento.

Até lá
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Escrito por Marcelo Souza

Psicólogo especialista em Análise do Comportamento pela Universidade de São Paulo / HU-USP. Pesquisador do Centro para o Autismo e Inclusão Social da Universidade de São Paulo IP-USP. Psicólogo estagiário do Programa de Pós Graduação Stricto Sensu (nivel mestrado) do Instituto de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo / IP-USP. Monitor da Prof. Dra. Martha Hubner no curso de especialização em Terapia Comportamental da Universidade de São Paulo / HU-USP. Psicólogo do Programa de Orientação ao Aluno da Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP. Professor convidado do curso de Fundamentos da Terapia Comportamental Clinica do InPA-EAD, ministrando as disciplinas " Análise Funcional do comportamento e Conceitos Básicos da Análise do Comportamento".