Ensinar sem apagar: compreendendo a função das estereotipias no autismo

O desafio de enxergar o que não precisa ser mudado

A cada nova geração de profissionais que se forma, cresce a consciência de que o autismo não é um conjunto de déficits, mas uma forma particular de existir.
Ainda assim, é comum que, nas salas de intervenção, o foco recaia sobre o que “precisa ser reduzido”, como: movimentos repetitivos, sons, balançar das mãos.
As estereotipias, frequentemente vistas como comportamentos “sem função”, acabam se tornando alvo de extinção, quando deveriam ser alvo de compreensão.

Sob a ótica da Análise do Comportamento, todo comportamento tem uma função. Nenhuma ação ocorre no vazio.
As estereotipias, portanto, são comportamentos operantes ou respondentes que cumprem papéis específicos no repertório da pessoa: podem produzir estimulação sensorial reforçadora, reduzir a ansiedade ou funcionar como resposta de autorregulação diante de um ambiente imprevisível ou excessivamente estimulante (Cooper, Heron & Heward, 2020).
O que, para o observador, parece “sem propósito”, muitas vezes é uma forma de contato e organização interna para quem vivencia o autismo.

Intervir não é apagar

A prática clínica baseada em ABA não deve ter como objetivo a eliminação pura e simples desses comportamentos, mas a compreensão funcional deles (Baer, Wolf & Risley, 1968).
Isso significa perguntar: qual é a função dessa estereotipia? O que ela comunica? O que ela regula?
Somente a partir dessa análise é possível decidir se uma intervenção é necessária, e caso seja, de que maneira ela pode ocorrer sem desrespeitar a individualidade do sujeito.

Intervir não é normalizar. Ensinar não é apagar.
A intervenção ética busca ampliar repertórios, não restringir expressões legítimas.
Quando uma estereotipia interfere em aprendizagens importantes, compromete a segurança ou gera sofrimento, o foco deve estar em ensinar alternativas equivalentes, mantendo a função original (Hanley, 2010).
Por exemplo, se o balançar do corpo regula a tensão, talvez uma pausa sensorial guiada, um estímulo tátil ou uma atividade motora alternativa possam cumprir o mesmo papel, sem exigir conformidade ao “padrão neurotípico”.

Um olhar que une técnica e humanidade

Esse olhar é coerente com o que Skinner (1953) descreveu ao afirmar que o comportamento é produto da interação contínua entre o organismo e o ambiente.
Eliminar uma resposta sem compreender as contingências que a mantêm é intervir no sintoma, não na função.
A ABA contemporânea, alinhada a princípios éticos e à valorização da neurodiversidade, reconhece que a função da ciência não é corrigir diferenças, mas construir ambientes em que as diferenças possam florescer (Leaf et al., 2022).

Respeitar o autista é reconhecer que sua forma de se movimentar, falar ou sentir não é um erro, mas uma maneira legítima de existir.
Mais do que extinguir comportamentos, precisamos ampliar o mundo que os acolhe, um mundo em que o terapeuta ensina sem apagar, ajusta sem impor e observa antes de julgar.
O verdadeiro progresso da intervenção comportamental está em unir rigor técnico e sensibilidade humana.

Referências

Baer, D. M., Wolf, M. M., & Risley, T. R. (1968). Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 1(1), 91–97.
Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied Behavior Analysis (3rd ed.). Hoboken, NJ: Pearson.
Hanley, G. P. (2010). Toward a meaningful understanding of problem behavior and replacement skills. Behavior Analysis in Practice, 3(1), 13–21.
Leaf, J. B., Cihon, J. H., Ferguson, J. L., et al. (2022). ABA and the neurodiversity movement: Bridging the gap through values-based practice. Behavior Analysis in Practice, 15, 991–1002.
Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan.

5 1 vote
Classificação do artigo
Avatar photo

Escrito por Silvio Julio de Amorim

Psicólogo com aprimoramento em Clínica Analítico-Comportamental e especialização em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua na prática clínica em consultório particular, com ênfase em Psicoterapia Analítico-Funcional (FAP), educação parental e intervenção com famílias. Coordena a equipe multidisciplinar do Centro de Referência do Transtorno do Espectro Autista (CRETEA) do município de Barueri/SP. É membro da Positive Discipline Association (PDA). Autor do livro “De terapeuta a pai: o relato íntimo de quem achava que sabia até se tornar pai” e atualmente colunista do Portal Comporte-se. Idealizador dos projetos “Machismo pra quem?” e “Olhar para quem cuida!”, voltados à promoção da saúde mental, equidade de gênero e valorização dos cuidadores.

Perspectivas de gênero: a influência da religião na subjetividade feminina sob uma ótica psicológica

Violência, Gênero e Saúde Mental: análise das relações e desafios no espaço de trabalho