“Mulher Original” (Allê Barbosa) sob a Perspectiva das Habilidades Sociais


 

A música “Mulher Original”, de Allê Barbosa, canta a história de uma mulher que se redescobre, cuida de si e aprende a se posicionar no mundo de forma autêntica. Uma trajetória alinhada com os principais conceitos das habilidades sociais, como propostos por Del Prette (2001, 2005), especialmente no que diz respeito à afirmação de direitos, expressão de sentimentos, autocontrole emocional e empatia. Que tal fazermos uma análise desta música? Vamos construir um caminho de autoconhecimento tornando nossas relações interpessoais saudáveis e funcionais, contribuindo para o bem-estar psicológico e para a resolução de conflitos cotidianos!

“Já que hoje é sexta / Deixa pra sofrer segunda / (Quem sabe já passou)”
“Já que hoje é sexta / Deixa isso lá pra terça / (Vai que já esqueceu)”

Este trecho representa uma escolha consciente de adiar o sofrimento não como negação, mas como um exercício de autocontrole emocional saudável. A personagem reconhece que está lidando com algo difícil (sofrimento), mas escolhe não se afundar nesse estado naquele momento, o que demonstra uma alta habilidade de autocontrole das emoções.
A habilidade de adiar reações emocionais intensas e escolher o melhor momento para lidar com elas é essencial nas relações interpessoais e no enfrentamento de problemas.

Tomada de perspectiva e pensamento flexível

“Quem sabe já passou” / “Vai que já esqueceu”

O trecho acima da música  mostra um reposicionamento cognitivo diante do problema. A mulher da música se dá a chance de considerar que o sofrimento pode não ser tão permanente quanto parece, essa são as habilidades de resolução de problemas e flexibilidade cognitiva.

Priorização do bem-estar e lazer

Ao associar a sexta-feira a um momento de leveza e não sofrimento, a personagem valoriza o prazer, o lazer e o autocuidado emocional, o que é essencial nas habilidades sociais.

Autoconhecimento e Autocuidado como base para relações saudáveis

“Quarta-feira, tire o dia / Pra cuidar da sua pele
Quinta, terapia / Pra cuidar do seu eu”

Aqui vemos uma mulher que investe em seu autocuidado físico e emocional, um comportamento essencial que sustenta outras habilidades sociais, como a assertividade e a empatia. Cuidar de si fortalece o senso de valor próprio e prepara o indivíduo para relações interpessoais mais conscientes. Ir à terapia, como diz na música, é um passo em direção ao autoconhecimento, uma pré-condição para habilidades sociais complexas, como a resolução de conflitos e a escuta ativa.

Afirmação de Direitos e Autenticidade

“Uma mulher original / Que melhora todo dia
Faz curva fechada / Mas ela não vira”

Esses versos retratam uma mulher que afirma sua identidade e se mantém firme diante das pressões sociais. A metáfora “faz curva fechada, mas ela não vira” representa a capacidade de resistir à manipulação, à culpa e à imposição alheia, algo recorrente em nossa sociedade atual e em suas relações, o que está diretamente ligado à afirmação de direitos, uma das classes de habilidades sociais descritas pelos Del Prette (2001, 2005). A música ainda afirma que ela melhora a cada dia, mas não se transforma para agradar aos outros, isso nos mostra autenticidade e congruência, características essenciais para relações saudáveis e não submissas.

 Expressão de Sentimentos Positivos e Reconhecimento Pessoal

“Ela descobre que é linda / E nunca percebeu”

Este momento é central na música: uma descoberta afetiva, emocional, que envolve autoaceitação. A expressão de sentimentos positivos sobre si mesma, ainda que inicialmente interna, também pode ser uma habilidade social importante, especialmente no contexto de pessoas que foram acostumadas a se colocar em segundo plano.

Esse reconhecimento emocional pode se estender para a expressão de sentimentos positivos para com os outros, fortalecendo vínculos interpessoais baseados em reciprocidade, valorização e respeito mútuo.

Resiliência e Autocontrole Emocional

A música, transmite uma jornada de transformação pessoal com foco no crescimento emocional. Essa transformação requer:

  • Autocontrole diante das expectativas externas
  • Resiliência emocional frente a frustrações e pressões sociais
  • Tomada de perspectiva e consciência sobre o próprio processo

Esses aspectos estão associados a habilidades de enfrentamento e regulação emocional, fundamentais para lidar com conflitos interpessoais sem recorrer a comportamentos passivo-agressivos ou submissos.

 Construção de Relações Saudáveis

Embora a música fale de forma mais individual, ela abre espaço para refletirmos como esse movimento de autoafirmação e cuidado pessoal impacta diretamente as relações interpessoais. Segundo Del Prette (2013), o desenvolvimento de habilidades sociais pessoais promove a construção de redes de apoio mais empáticas, colaborativas e autênticas.

“Mulher Original”, de Allê Barbosa, vai além de um elogio à estética ou à independência feminina: ele canta a jornada de fortalecimento de uma identidade que se constrói com autocuidado, resistência às imposições sociais e descoberta de si mesma. Sob a ótica das habilidades sociais dos Del Prette,(2013)  a canção ilustra um processo de amadurecimento que envolve expressão emocional, afirmação de direitos, autocontrole e autenticidade nas relações.

Em um mundo onde tantas relações são atravessadas por jogos de poder, culpa ou invisibilidade, a mulher original inspira a prática de habilidades sociais como forma de liberdade e saúde emocional.

Referências

COSTA, Ale. Mulher Original. 1 faixa sonora. [S.l.]: Ale Costa, 2022. Disponível em: https://open.spotify.com/track/6eAWzZzJNVpQdSz2g24QZj. Acesso em: 29 set. 2025.

Del Prette, A., & Del Prette, Z. A. P. (2001). Psicologia das habilidades sociais: terapia e educação. Petrópolis: Vozes.

Del Prette, Z. A. P., & Del Prette, A. (2005). Habilidades sociais e educação: práticas educacionais e a construção de competências. Vozes.

Del Prette, Z. A. P.; Del Prette, A. (2013). Psicologia das habilidades sociais na infância: teoria e prática. Petrópolis, RJ: Vozes.

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Escrito por Fernanda Cerqueira

Psicóloga Clínica. Mestre em Análise e Evolução do Comportamento pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás). Especialista em Terapia Analítico Comportamental Clínica pela Unijorge. Pós Graduanda em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa BA. Psicóloga, formada pela União Metropolitana de Educação e Cultura (Unime) Salvador BA.
E-mail para contato:
nandacerqueira-@hotmail.com

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