Considerações breves sobre variáveis de gênero em relacionamentos amorosos e infidelidade

Escrito por Bruna Petinatti e Julia Moreira

Sabemos que os papéis de gênero estão presentes e interferem em diversos contextos, e nos relacionamentos românticos isso não seria diferente. E assim como existem os padrões sociais de feminilidade a serem seguidos, o mesmo vale para a masculinidade. Dentre os tipos de masculinidade, o conceito dominante é o de masculinidade hegemônica, que descreve o padrão de comportamentos que deve ser tido como modelo entre os homens. Este padrão rejeita todos os comportamentos vistos como “femininos”, assim reforçando práticas de misoginia e homofobia. “(…) a masculinidade hegemônica atualmente desempenha um importante papel na legitimação do patriarcado, garantindo a posição dominante dos homens sobre as mulheres; a reivindicação dessa dominação pode fomentar, sustentar ou apoiar atitudes violentas” (Kuch & Dittrich, 2023, p.159). Em determinados contextos, quanto mais os homens seguirem este padrão de masculinidade, mais acesso à reforçadores terão; quanto mais se afastarem, maior a probabilidade de sofrerem punições de seu grupo. 

Mesmo havendo um padrão ideal estabelecido, existem diferentes masculinidades, que variam conforme normas e práticas culturais, além da influência de “questões de classe, raça/etnia, sexualidade, religiosidade, deficiência, regionalidade/nacionalidade, entre outras dimensões sociais” (Chaveiro, Oliveira & Gotti, 2025, p.25). A masculinidade, portanto, é atravessada pelas intersecções, que entrelaçam diferentes formas de opressão e resultam em distintas formas de discriminação, definindo o lugar ocupado na hierarquia de gênero e produzindo relações assimétricas de poder. Como destacam Kuch & Dittrich (2023), considerar esses marcadores abre espaço para pensar masculinidades no plural, em oposição à ideia de uma hegemonia fixa, ampliando a compreensão das dinâmicas relacionais. Isso permite refletir não apenas sobre a desigualdade entre homens e mulheres, mas também sobre desigualdades geradas por outros marcadores sociais, inclusive em relacionamentos homoafetivos.

Uma das práticas da masculinidade hegemônica é a definição da heterossexualidade como a orientação sexual privilegiada (Kuch & Dittrich, 2023). De acordo com Valério, Castro e Florêncio (2022), um dos padrões impostos por essa forma de masculinidade é a do desempenho e desejo sexual, incentivando a competição entre os homens e ditando que eles devem ter uma vida sexual intensa e estar sempre em busca de parceiras. “Essa dinâmica prejudica o próprio homem, que não é capaz de reconhecer medos e inseguranças, (…) além de contribuírem para que o homem se sinta no direito de desrespeitar e assediar mulheres” (p.49). Homens que não alcançam o padrão de virilidade e desempenho sexual podem recorrer a formas alternativas de afirmação, como a hostilidade contra mulheres, sustentada em movimentos como o redpill, que reforçam o desprezo e a superioridade masculina como marcas de pertencimento.

Dentro desse contexto, a traição surge como um comportamento frequentemente aceito e até reforçado socialmente para os homens, enquanto a mesma ação é julgada de forma muito mais severa quando realizada por mulheres. A traição masculina se alicerça nas diferentes expectativas de comportamento entre os gêneros: homens devem dominar e mulheres devem ser submissas (Valério, Castro & Florêncio, 2022). Dentro dos códigos socialmente construídos, que moldam nossa percepção sobre como cada um irá agir, está o desejo sexual masculino, descrito como muito mais intenso que o feminino. Isso reforça a ideia de que os homens traem por não conseguirem controlar seus desejos, sendo algo orgânico e, portanto, natural. Já no caso das mulheres, o sexo é colocado no lugar de troca, de algo que elas podem oferecer aos homens; assim, quando traem, são interpretadas como pessoas de caráter duvidoso, pois, nesse contexto, o comportamento feminino seria totalmente controlável (Zanello, 2020; Scheeren, 2016).

Outros aspectos sociais que contribuem para a manutenção desse comportamento aparecem nas interações com homens do círculo social. Por exemplo, quando um homem está em um relacionamento em que atende aos pedidos da parceira, ele pode ouvir comentários como “você é um pau mandado” ou “sua mulher parece o homem da casa”. Já em situações nas quais recusa investidas de outras mulheres ou não demonstra explicitamente desejo por outra mulher, escuta que “é besta” ou “não é homem de verdade”. É esperado que ele se envolva com diversas mulheres e que não desenvolva um vínculo sério ou emocional, apenas utilizando o corpo feminino para atender seus desejos (Zanello, 2020). Outro conceito que se relaciona é o da masculinidade cúmplice, que se assemelha com a hegemônica; porém, nesses casos os homens seguem ou se afastam das regras da masculinidade hegemônica a depender do contexto, se é benéfico ou não naquela determinada contingência (Kuch & Dittrich 2023, apud Connell 2005). “Isso poderia ajudar a explicar, por exemplo, os comportamentos de homens que parecem se comprometer com as pautas feministas quando lhes é conveniente, mas que junto aos seus pares tendem a emitir respostas sexistas” (Kuch & Dittrich, 2023, p.163).

Esses padrões, sustentados socialmente, acabam moldando a forma como homens e mulheres vivenciam seus relacionamentos. A infidelidade, portanto, pode ser entendida não como um ato isolado, mas como um comportamento que emerge em um contexto relacional atravessado por expectativas desiguais de gênero. Os motivos de uma traição são diversos e devem ser analisados caso a caso; Scheeren (2016), em uma pesquisa com 237 brasileiros, identificou mudanças em relação a padrões descritos em estudos anteriores, nos quais os homens apresentavam maior frequência de infidelidade sexual e as mulheres, de infidelidade emocional. Os dados apontaram para uma aproximação entre os comportamentos, sendo que ambos “revelaram buscar carinho, compreensão e atenção na relação de infidelidade e relatam não encontrar esses afetos na sua relação primária” (p.87). A infidelidade mostrou-se diretamente relacionada ao repertório do casal para lidar com seus problemas relacionais e ao nível de insatisfação com a relação ou com o parceiro.

Nem sempre a infidelidade está ligada apenas à insatisfação conjugal ou à falta de habilidades de resolução de conflitos. Em alguns casos, pode funcionar como estratégia de atingir o(a) parceiro(a). Em relacionamentos abusivos, por exemplo, a traição pode ter a função de abalar a autoestima e a autoconfiança da vítima (Santos, 2018). Ainda que o relacionamento esteja em crise, uma relação extraconjugal não resolve os problemas do casal; no máximo, ameniza desconfortos ou supre necessidades individuais (Christensen, Doss & Jacobson, 2018). Um relacionamento saudável envolve habilidades pouco incentivadas socialmente, como expressar sentimentos e expectativas, confiar na parceria para expor vulnerabilidades, cultivar respeito e empatia (Santos, 2018). 

Homens são ensinados a ver mulheres como inferiores, e a socialização masculina se estrutura no ódio a elas, algo que impacta até mesmo relacionamentos com aquelas que afirmam “amar” (Zanello, 2022). Já para as mulheres, valores como obediência e moralidade são reforçados, junto à expectativa de que assumam a manutenção do lar, do relacionamento e do bem-estar alheio (Fontana & Laurenti, 2020). Embora cuidado e expressão emocional sejam valorizados nelas, espera-se também que permaneçam em silêncio e não questionem seus parceiros (Pinheiro, 2020; Valadares, Zanello & Oliveira, 2022). O resultado dessa construção é a falta de responsabilização masculina, já que se espera que a mulher assuma a culpa ou releve a situação. A infidelidade, nesse contexto, representa um risco duplo para elas: se traem, podem sofrer agressões em nome da “honra masculina” e serem punidas em seu círculo social; se cobram responsabilização do parceiro, também correm risco de violência por terem questionado sua autoridade.

Os homens estão no centro da manutenção das desigualdades de gênero e são os principais beneficiados, razão pela qual precisam se comprometer com ações que favoreçam mudanças (Kuch & Dittrich, 2023). Esse processo inclui reconhecer o impacto dos papéis de gênero nas relações e emitir respostas que sejam reforçadoras para o outro. Responsabilizar-se pelas escolhas e sustentar ações coerentes com os próprios valores faz parte da construção de vínculos significativos. Não se trata apenas de situações individuais a serem manejadas pelo casal ou pelo terapeuta; é necessário considerar também as contingências do terceiro nível de seleção e planejar modificações culturais que sustentem mudanças mais amplas (Santos, 2018; Ferraz, Peixinho, Vichi & Sampaio, 2019).

Em nosso trabalho na clínica, precisamos estar atentos à essas variáveis que podem estar presentes nos relacionamentos amorosos, tomando cuidado para não reproduzir ou reforçar discursos estereotipados e/ou violentos e perpetuar desigualdades de gênero. Para o atendimento de mulheres, é essencial levarmos em conta a violência estrutural sofrida. “A terapeuta precisa estar apta a olhar além do relato. Não apenas buscando possíveis esquivas ou outras informações no subtexto do discurso, mas principalmente olhando além para os aspectos estruturais que permeiam o sofrimento da mulher.” (Costa, 2025, p.82). Já no caso do atendimento de homens, devemos nos atentar para identificar possíveis padrões “tóxicos” de masculinidade – como comportamentos inadequados ou violentos, e então auxiliar o cliente a ter um olhar crítico em relação aos seus próprios comportamentos e o de seus pares, conscientizando-o sobre as variáveis culturais e sobre os prejuízos a longo prazo para si mesmo e suas relações. Para Kuch e Dittrich (2023), é por meio da relação terapêutica e de um bom vínculo estabelecido que os terapeutas têm a possibilidade de propiciar a produção de novos padrões de masculinidade.

Para mais considerações sobre intervenções clínicas no atendimento de mulheres, indicamos outro texto publicado pela equipe do SIG Mulheres, “Breve manual de orientação no atendimento a mulheres: como ser um espaço que não produza mais sofrimento”. Recomendamos também o texto “De onde vem o sofrimento dos homens?”, publicado pelo autor João Holanda, para maiores análises e reflexões sobre sofrimento e masculinidade.

Referências

Chaveiro, M. M. R. de S. ., Oliveira, G. A. de., & Gotti, E. S. (2025). Masculinidades plurais e Análise do Comportamento: uma perspectiva interseccional. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 16(1), 023–042. https://doi.org/10.18761/pac1016

Christensen, A., Doss, B. D., & Jacobson, N. S. (2018). “Não faça isso comigo” – Violência, abuso verbal e infidelidade. Diferenças Reconciliáveis: reconstruindo seu relacionamento ao redescobrir o parceiro que você ama, sem se perder (pp. 399-429). Sinopsys.

Costa, A. I. (2025). Violência estrutural contra as mulheres: qual é o papel de uma terapia feminista? In: Rocha, G. V. M. & Savio, T. V. (Orgs). A clínica das violências. São Paulo, Editora Instituto Par, 2025. p. 81-99.

Ferraz, J. C., Peixinho, H. L. S., Vichi, C. & Sampaio, A. A. S. (2019) Uma análise de metacontingências e macrocontringências envolvidas em práticas de gênero. Em   R. Pinheiro  &  T.  Mizael  (Orgs.) Debates  sobre feminismo  e  análise  do  comportamento.  (pp. 220-243). Imagine Publicações.

Fontana, J., & Laurenti, C. (2020). Práticas de violência simbólica da cultura de dominação masculina: uma interpretação comportamentalista. Acta Comportamentalia: Revista Latina De Análisis Del Comportamiento, 28(4). Recuperado a partir de https://www.revistas.unam.mx/index.php/acom/article/view/77327

Kuch, I. E. ., & Dittrich, A. (2023). As masculinidades como variáveis relevantes para analistas do comportamento: Reflexões teóricas e práticas. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 154–169. https://doi.org/10.18761/vecc291122a

Pinheiro, R. S. (2020). Afinal, por que eu me sinto tão insegura? E o que isso tem a ver com gênero? https://comportese.com/2020/06/25/afinal-por-que-eu-me-sinto-tao-insegura-e-o-que-isso-tem-a-ver-com-genero/

Santos, L. R. (2018). Crenças e vivências da infidelidade na contemporaneidade. (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Sergipe). Repositório Institucional da Universidade Federal de Sergipe. https://ri.ufs.br/handle/riufs/9288

Scheeren, P. (2016). Comportamento de infidelidade em homens e mulheres (Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil). Recuperado de http://hdl.handle.net/10183/157439

Valadares, V., Zanello, V. & Oliveira, S. (2022). Autodesresponsabilização na violência contra as mulheres: interpretações, motivos e justificativas de homens agressores no df. Em Beiras, A., Martins, D. F. W., Sommariva, S. S. & Hugil, M. S. G. (Orgs). Grupo para homens autores de violência contra as mulheres no Brasil: Perspectivase estudos teóricos. (pp. 2240246). Academia Judicial.

Valério, A., Castro, D. P. de ., & Florêncio, T. (2022). Reflexões sobre masculinidades: possibilidades de interpretação a partir de uma visão analítico-comportamental. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 13(1), 041–053. https://doi.org/10.18761/VEEM.13796

Zanello, V. (2020). Masculinidades, cumplicidade e misoginia na “casa dos homens”: um estudo sobre os grupos de whatsapp masculinos no Brasil. Em Ferreira, L. (Org). Gênero e perspectiva. (pp. 79- 102). Editora CRV. 

Zanello, V. (2022). A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. Appris.

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Escrito por SIG Mulheres na ACBS

Coluna do Grupo de Interesse Especial (SIG) em Mulheres na ACBS Br. Espaço para discussão de variáveis de gênero nas terapias comportamentais contextuais. Projeto organizado por Isla Cezzani, Julia Moreira, Aline Cristina da Silva, Amanda Rosa, Ana Patricia Cavalheiro, Bruna Petinatti, Camila Lourenço, Carolina da Silva, Juliana Melo

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