Pelo fato do suicídio ser um problema de saúde pública, vemos que as estratégias de enfrentamento dele se dá em duas grandes frentes: a prevenção e a posvenção. Há diversas formas de se atuar em cada uma delas. No texto de hoje, o foco será na atuação de bombeiros(as) em gerenciamento de crises.
Em 20051, durante uma ocorrência com risco de suicídio na Zona Leste de São Paulo, o major Diógenes Munhoz teve uma abordagem com o tentante – termo usado para designar a pessoa que estava prestes a fazer uma tentativa – inédita: ao invés de procurar removê-lo do meio letal de maneira coercitiva, estratégia tipicamente adotada nessas ocasiões, buscou conversar e conhece-lo. A abordagem teve uma duração de 6 horas, tendo sucesso em fazer com que houvesse uma tentativa de suicídio.
Desde então, Munhoz procurou capacitações para aperfeiçoar a abordagem, inicialmente com o Centro de Valorização da Vida (CVV). Passados 10 anos, criou uma sistematização na abordagem frente a situações de tentativas de suicídio, buscando uma forma humanizada e acolhedora de persuadir o tentante a desistir da tentativa. Na experiência de Munhoz, esse desfecho era mais positivo a curto e a longo prazos para ambos, dado que haveria menor probabilidade de bombeiros(as) serem acionados(as) em função dessa mesma pessoa estar a postos de uma nova tentativa no futuro. Além disso, como essa abordagem trouxe redução em tentativas de suicídio, bombeiros(as) que praticaram essa conduta sofreram menos exposição de suicídio de terceiros(as), um fator de risco importante para o desenvolvimento do comportamento suicida.
Em uma monografia sobre o tema2, Gabriela Lyrio buscou sistematizar as orientações feitas na abordagem. Bombeiros(as) passam por um treinamento prévio, compreendendo sobre o suicídio, mitos e fatos, a fim de haver um alinhamento entre as crenças pessoais e a produção científica sobre o fenômeno. Em uma situação de abordagem a um tentante, há duas formas de fazê-la: a técnica e a tática. A tática consiste em uma ação rápida para impedir coercitivamente a pessoa de fazer uma tentativa, devendo ser usada em último caso, precisando de 2 militares presentes para fazê-la. A técnica também necessita de 2 militares, nos quais um tem o papel de abordador técnico e o outro de auxiliar. Apenas o abordador técnico se comunica com o tentante.
Inicialmente, ambos se aproximam do tentante, com o abordador técnico aguardando brevemente para que as presenças de bombeiros sejam assimiladas. Em seguida, se apresenta, dizendo “estou aqui para te escutar”. Esse termo é importante, dado que se evita falar “ajudar” nesse tipo de contexto. Em seguida, conforme escuta o tentante, busca-se mostrar compreensão, através de validações e escuta ativa. Isto posto, o abordador técnico faz perguntas simples e diretas, como composição familiar, se tem animais de estimação, a fim de identificar possíveis fatores de risco e de proteção, tendo consciência de que estes variam de pessoa para pessoa. Conforme eles são coletados, o abordador técnico tenta explorá-los para fazer com que o tentante voluntariamente desista da tentativa. Se o tentante não formar vínculo com o abordador técnico ou se sentir que foi enganado ou manipulado, o abordador técnico e o auxiliar trocam de papéis.
Munhoz cunhou 3 perfis de tentantes: agressivo, depressivo e psicótico. Há estratégias específicas para cada um desses grupos a fim de aumentar a eficácia da intervenção2. É importante ressaltar que, dentro de uma abordagem, o tentante pode oscilar entre um perfil e outro. No agressivo, as orientações consistem em:
- Deixar o tentante desabafar, adotar postura menos falante;
- Evitar olhar fixamente nos olhos, pois pode ter conotação confrontativa;
- Posicionar-se no nível do tentante ou abaixo;
- Evitar o modo imperativo;
- Responder em tom mais baixo se o tentante gritar.
No depressivo, as orientações são:
- Incentivar o tentante a falar mais;
- Posicionar-se no nível do tentante ou acima;
- Ajudar o tentante a chegar a conclusões sozinho;
- Evitar dar conselhos;
- Demonstrar empatia e compaixão.
Por fim, no perfil psicótico, as instruções consistem em:
- Experimentar concordar com alucinações de tentante;
- Compreender que a abordagem com esse perfil pode ser mais extensa.
Ao longo de sua carreira, Munhoz atuou em 62 abordagens de tentativas de suicídio, não tendo uma morte como desfecho nelas3. Ele dá cursos e capacitações tanto no Brasil quanto no cenário internacional.
Referências
Referências:
1 https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/07/02/bombeiro-que-evitou-57-suicidios-cria-tecnica-agora-usada-em-20-estados.ghtml, acesso em 09 de Setembro de 2025.
2 https://biblioteca.cbm.df.gov.br/jspui/bitstream/123456789/255/2/1139%20-%20Produto%20-%20Lyrio.pdf, acesso em 09 de Setembro de 2025.
3 https://revistaemergencia.com.br/multimidia/emergencia-entrevista-fala-com-coronel-diogenes-munhoz-especialista-em-abordagem-tecnica-a-tentativas-de-suicidio/, acesso em 09 de Setembro de 2025.

