O Lugar da Religião no Setting Terapêutico

Escrito por Amanda Rosa e Carolina da Silva

A espiritualidade no contexto clínico é um tabu e muitas vezes subestimada ou pouco aprofundada. Nós, como terapeutas, podemos adotar um olhar enviesado, esquecendo que ela compõe uma parte importante do trabalho na clínica. Esse texto tem como intuito promover uma reflexão, entre nós psicólogos acerca das estruturas que sustentam de forma rígida e inflexível o pensar sobre a religião e espiritualidade tanto no contexto clínico quanto no pessoal. Essas estruturas quando não questionadas acabam contribuindo com a manutenção desses sistemas de maneira enviesada, dificultando a compreensão e acolhimento do tema. Nesse sentido, o trabalho no setting terapêutico pode servir como ponto de ruptura para tais padrões, favorecendo a construção de novas crenças e promovendo uma forma mais flexível e aberta de se relacionar com a espiritualidade e a religião. Esse movimento inicia-se em nós, é transmitido à sociedade e, por fim, estendido aos nossos pacientes.

Do ponto de vista comportamental, a espiritualidade frequentemente se manifesta através de comportamentos governados por regras, ou seja, padrões de conduta orientados por descrições verbais de contingências. Essas regras podem funcionar como guias de valores promovendo aceitação, compaixão e propósito ou, em contrapartida, podem gerar rigidez, culpa e sofrimento quando seguidas de forma inflexível. Nesse sentido, incluir a espiritualidade no espaço clínico significa reconhecer e trabalhar com essas regras, ajudando o paciente a distinguir quais delas o aproximam de uma vida significativa e quais apenas o aprisionam em padrões de evitação e autocrítica. Não apenas com um olhar de espiritualidade ligado intrinsecamente com dogmas e crenças, mas ver para além disso, com abertura e sem julgamento, segundo Hayes (1984, p. 108), “uma interpretação comportamentalmente sensata da espiritualidade sugere não apenas uma fonte, mas também possíveis contingências de manutenção para uma distinção matéria/espírito.”

Podemos aprofundar essa discussão entendendo que, as regras que mantêm o reforçamento do comportamento religioso não exercem função de operação motivadora, mas a ansiedade gerada pelo não seguimento da regra a exerce (Fidalgo, 2016).

 “A história necessária para que este controle motivacional vigore é aquela na qual houve punição contingente ao não seguimento de regras, fazendo com que, no futuro, o comportamento de não seguir a regra se tornasse aversivo, o que tornaria qualquer resposta de seguimento uma forma de fuga/ esquiva” (Gomes, 2018).

 As normas religiosas, que descrevem contingências futuras de punição ou recompensa (Balog, 2025), frequentemente exercem um poder desproporcional, sustentadas tanto pelo “medo do castigo divino” quanto pelo reforço social de pertencimento à comunidade. Isso cria um campo fértil para padrões de obediência que nem sempre refletem escolhas conscientes, mas sim estruturas coercitivas disfarçadas de virtude.

A Teoria das Molduras Relacionais (RFT) explica que a linguagem se revela como ferramenta central na perpetuação de determinadas crenças. As molduras relacionais criam equivalências arbitrárias entre símbolos, palavras e experiências (Moraes, Assaz & Oshiro, 2023), como “sacrifício absoluto é prova de devoção” ou “desobedecer é pecado”, transformando o sofrimento em um valor moralizado e quase inquestionável. Esse processo mostra como narrativas religiosas podem se consolidar como autorregras inflexíveis, que não apenas orientam comportamentos, mas controlam subjetividades inteiras.

Reconhecer isso no espaço clínico é enfrentar outra verdade difícil. Parte do sofrimento emocional em pessoas excessivamente devotas vem de histórias internalizadas e validadas socialmente, que passam a governar vidas inteiras como se fossem verdades absolutas. Quando não problematizamos o peso dessas narrativas, acabamos colaborando para que o paciente permaneça preso a um vocabulário de obediência e culpa, em vez de ajudá-lo a construir, através da linguagem, novas molduras mais flexíveis, abertas e conectadas a valores autênticos (Balog, 2025).

 Ao trazer esse ponto para o espaço clínico, somos desafiados a lidar com reflexões que podem ser desconfortáveis. Muitos pacientes não seguem suas práticas religiosas por livre engajamento, mas porque foram treinados a obedecer rigidamente, mesmo quando isso os afasta do que consideram uma vida plena e significativa. Ignorar esse aspecto é reforçar o ciclo de silêncio e perpetuar a ideia de que sofrimento espiritual é “prova de fé”, quando na verdade pode ser um sintoma de aprisionamento verbal e social, ou em contrapartida uma libertação do sofrimento. Por outro lado, é importante reconhecer que a vivência religiosa, quando escolhida pelo indivíduo, pode representar pertencimento, reencontro com a espiritualidade e conexão com a ancestralidade, sendo parte constitutiva de sua cultura.  

Mesmo que não corresponda às crenças do psicólogo, ou na ausência delas, cabe ao profissional ouvir, acolher e compreender esse contexto, já que ele expressa modos de relação consigo, com os outros e com o mundo. De acordo com Hayes, S. C. (1984), em Making sense of spirituality, a espiritualidade pode ser entendida como produto de contingências culturais e simbólicas, o que reforça a necessidade de integrá-la ao processo clínico como recurso para intervenções e para o autoconhecimento do paciente. Hayes (1984) adverte que “o perigo é presumir que, com base apenas em nossa concordância de que o dualismo é incorreto, falar de espiritualidade não pode ser um tato.” Essa afirmação ressalta a importância de não tomarmos o conceito de espiritualidade apenas em sua literalidade, mas compreendê-lo como parte de uma linguagem que expressa experiências humanas significativas. Assim, ainda que a distinção entre matéria e espírito não seja sustentada, a espiritualidade não deve ser excluída do discurso clínico. Pelo contrário, pode funcionar como um tato, ou seja, como uma forma válida e funcional de descrever vivências de pertencimento, transcendência, conexão e valores, e dimensões particularmente relevantes dentro do setting terapêutico.

Podemos compreender, ao longo dessa reflexão, que a espiritualidade, quando aparece no espaço clínico, convida o psicólogo a uma postura de abertura e acolhimento, sem que isso signifique induzir a convicções religiosas (Egg-Serra & Holanda, 2022). É justamente por sua natureza laica e ética que a psicologia pode se tornar um lugar privilegiado de escuta, no qual o paciente possa falar de sua fé, de sua espiritualidade ou até mesmo de sua ausência, sem ser julgado ou conduzido a uma única forma de viver (Santos, 2021). Nesse sentido, o psicólogo pode sustentar uma clínica que não exclui o tema, mas o ressignifica como parte legítima da experiência humana, vinculada à cultura, à história e às relações interpessoais. 

 De acordo com o Código de Ética e com a Resolução CFP 7/2023, no exercício profissional o psicólogo deve se fundamentar na ciência psicológica, na ética e na legislação, considerando a laicidade como pressuposto do Estado Democrático de Direito, sustentado pelo pluralismo e pelos direitos fundamentais. Isso implica não apenas reconhecer essas esferas como formadoras de subjetividades e coletividades, mas também refletir sobre os contextos históricos e culturais do indivíduo. Portanto, a psicologia não pode, sob nenhuma circunstância, ser reduzida ou nomeada como “cristã”. Construir vínculo sob qualquer vertente religiosa específica fere diretamente os princípios éticos da profissão, deslegitima sua base científica e compromete a integridade do cuidado oferecido à pluralidade de pacientes. 

Esse dever ético não diminui, mas amplia a responsabilidade do psicólogo em relação ao tema (Padilha, Fazzano & Gallo, 2022). Reconhecer a espiritualidade como linguagem, como expressão de valores, pertencimento e sentido, é parte do compromisso de construir uma clínica que acolha a complexidade da experiência humana. Isso exige não apenas formação técnica, mas também disposição para encarar criticamente narrativas que, muitas vezes, sustentam tanto o sofrimento quanto a possibilidade de ressignificação e liberdade. 

Por fim, é importante destacar que, nessa discussão que propomos, também é nosso dever olhar pelas lentes do recorte de gênero. É evidente como a religião historicamente tem operado como um dispositivo de controle do corpo e da subjetividade feminina. Essa é uma dimensão que amplia ainda mais a complexidade do conteúdo aqui apresentado, e que será aprofundada na parte 2 deste texto.

Referências Bibliográficas

Balog, L. G. C. (2025). Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento. Perspectivas em Análise do Comportamento, 16(1).

Conselho Federal de Psicologia. (2023). Resolução nº 7, de 06 de abril de 2023: Estabelece normas para o exercício profissional em relação ao caráter laico da prática psicológica. Conselho Federal de Psicologia. https://sei.cfp.org.br/sei/controlador_externo.php?acao=documento_conferir&id_orgao_acesso_externo=0

DE MORAES, Gabriela Jacques; ASSAZ, Daniel Afonso; OSHIRO, Claudia Kami Bastos. Teoria das Molduras Relacionais (RFT): Introdução para analistas do comportamento. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, São Paulo, v. 25, p. 1-21, 2023. DOI: 10.31505/rbtcc.v25i1.1745. Disponível em: https://rbtcc.com.br/RBTCC/article/view/1745/883

Egg-Serra, A. P., & Holanda, A. F. (2022). Narrativas sobre ciência e religião e seu impacto na formação em psicologia. Revista Pistis & Praxis, 14(3).

Fidalgo, A. P. (2016). O controle instrucional segundo analistas do comportamento: convergências, divergências e estado atual do debate. Tese de doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento. 250 pag. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

FROTA, Vitória Régia Albuquerque; SOUSA, Narlla Andrade de; SILVA, Lorena Brito da. Diálogos entre gênero, raça e o empoderamento feminino nas religiões de matriz africana: um olhar da psicologia social. In: CONEXÃO UNIFAMETRO 2022, Fortaleza, 2022. Anais […]. Fortaleza: Unifametro, 2022. Disponível em: https://doity.com.br/anais/conexaounifametro2022/trabalho/262746

GOMES, Cainã Teixeira. Comportamento governado por regras e responder relacional: uma análise experimental. 2017. 112 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018. Disponível em: https://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/21146

HAYES, S. C. Making sense of spirituality. Behaviorism, v. 12, p. 99-110, 1984.

Padilha, F. M. G., Fazzano, L. H., & Gallo, A. E. (2022). Relação entre cultura e religião na emissão de comportamentos LGBTfóbicos por psicólogas (os) clínicas (os). Perspectivas em análise do comportamento, 13(1), 129-141.

Santos, G. A. (2021). A religião na ótica da psicologia. Anais do XV Colóquio Internacional Educação e Contemporaneidade.

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