Autores: O texto foi elaborado e executado em parceria com Maria Gabriela Cardoso Lira e Giovanna Dias Santanna, amigas e mestrandas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, campus de Bauru. Revisado por Prof. João Henrique de Almeida (UNESP-Bauru).
Contextualização:
A música “August” de Taylor Swift, presente no álbum Folklore (2020), retrata uma história de amor de verão marcada por intensidade, ilusão e arrependimento, mas sob o ponto de vista da “outra”; ou seja, a garota (Augustine) que viveu um relacionamento com alguém (James) que já estava em uma relação de compromisso com outra pessoa.
Para escutar a música: Taylor Swift – august (Official Lyric Video)
O objetivo desse texto é fornecer ao leitor uma interpretação analítico-comportamental de como a garota da música (Augustine) “navega” verbalmente em seu ambiente, tendo como base a unidade de análise ROE (Relacionar, Orientar e Evocar). No âmbito do Relacionar, também faremos menção aos diferentes níveis e dimensões apresentados pela organização HDML (Hiper-Dimensional Multi-Nível; veja alguns posts em https://comportese.com/author/silvestre-marcello/), os quais serão úteis para analisarmos a “força” das respostas relacionais de Augustine.
Um dos trechos mais icônicos da música “But I can see us lost in the memory\ August slipped away into a moment in time” (Mas eu consigo nos ver perdidos na memória\ Agosto escorregou para um momento no tempo) demonstra como Augustine responde atualmente (após seu affair com um parceiro já comprometido com outra garota) ao ambiente que está em contato: perdida nas memórias de um tempo que se passou no mês de agosto. Dessa forma, Augustine por toda a música está a “lembrar”, “viver”, e “esperar por”, todos os momentos experienciados com o James. Isso destaca como a nossa relação com o tempo é verbal, sendo possível experienciar o passado e o futuro diante o presente momento. Na música, Augustine, no aqui-e-agora, está a responder às suas próprias respostas do passado (e também àquelas que planejou anteriormente para um futuro).
Partes do ambiente de Augustine “Salt air, and the rust on your door” (Ar salgado e a ferrugem na sua porta) parecem remeter a algumas de suas experiências individuais, que a levam a dizer “I never needed anything more” (Eu nunca precisei de nada além disso), e a escutar sussurros de “Are you sure?\ Never have I ever before” (Você tem certeza?\ Eu nunca fiz isso antes). Mesmo a música não tendo um vídeo, a capa do vídeo no Youtube (e propositalmente a capa desse texto) indicam que Augustine está (ou esteve), próximo a uma área costeira ou beira de uma praia (ar salgado e sinais de ferrugem). O vídeo do youtube também faz com que o espectador visualize esse ambiente, ao apresentar plantas altas e finas balançando com o vento, com um fundo branco e azul esbranquiçado que lembra o céu nublado e o horizonte do mar. Interessante notar como partes sutis do ambiente de Augustine são capazes de significar muito mais do que aparentam ser, “I never needed anything more” (Eu nunca precisei de nada além disso). Como um ar salgado e ferrugem podem ser tudo que ela precisa? E sim, “pode ser tudo que ela precisa”, pois esses eventos estão provavelmente relacionados ao affair que teve com o James. Ou seja, ela está respondendo a um evento (ar salgado, ferrugem, e o próprio mês de agosto) em termos de outro (James) — isso é o Relacionar. Em outros termos, Augustine está emoldurando (RRAA) eventos de seu mundo.
Enquanto a personagem entra em contato com suas lembranças, a frase marcante “August slipped away into a moment in time” (Agosto escorregou para um momento no tempo)”, sofre pequenas alterações para “August sipped away like a bottle of wine” (Agosto foi consumido como uma garrafa de vinho), provavelmente indicando que agosto (ao lado de James) foi rapidamente e intensamente vivido como uma embriaguez, ambos sem pensar nas consequências; entretanto, como uma garrafa de vinho, a relação dos dois estava fadada a acabar. A música demonstra como Augustine metaforicamente responde à relação amorosa anteriormente tida com James: um momento efêmero tal qual o consumo de uma garrafa de vinho. Diante disso, torna-se possível entendermos como Augustine se via e sentia-se na relação. Mais à frente (em um tom animado da música) veremos que o mês de agosto foi intensamente vivido por Augustine.
Augustine “perder-se nas memórias” parece trazer experiências emocionais– experiências essas que acontecem em tempo real ao seu lembrar – isso é o Evocar, ou seja, à forma que um evento é percebido enquanto apetitivo, neutro, ou aversivo, podendo desencadear respostas de “aproximar-se” ou “evitar-se”; portanto, em termos do ROE, emoções e suas formas de expressões é Evocar. A música nos parece dizer que o lembrar evoca uma certa intensidade emocional em Augustine, permeada por nostalgia, saudade, da sensação de tê-lo (“I remember thinkin’ I had you”\Eu me lembro de pensar que te tinha), de não tê-lo (“‘Cause you were never mine”\Porque você nunca foi meu), e da esperança e, simultaneamente, incerteza quanto à continuidade da relação no futuro (“Will you call when you’re back at school?”\Você vai ligar quando voltar pra escola?).
Seguindo para um dos trechos mais animado da música, “Back when we were still changin’ for the better/ Wanting was enough, for me, it was enough” (Quando ainda estávamos mudando para melhor/Querer era o suficiente, para mim, era o suficiente), isso demonstra que, na visão de Augustine, o que estava sendo feito estava funcionando, estava levando a relação deles para um novo patamar, e o “querer” (isto é, o desejo um pelo outro) era suficiente. Podemos supor que Augustine se atentava (provavelmente muito mais que o James) para qualquer aspecto do ambiente que indicasse que “as coisas estavam mudando para melhor”, que ambos “estavam querendo um ao outro” e que isso pudesse ser mais do que um romance de verão (“To live for the hope of it all”/Viver pela esperança disso tudo) — isso é o Orientar, diz medida à que certos eventos “atraem nossa atenção”.
Nos versos seguintes, vemos a disponibilidade de Augustine para James (“Cancel plans just in case you’d call\ And say you meet me behind the mall”/ Cancelar planos para o caso de você ligar e dizer: me encontre atrás do shopping). Observe como essa disponibilidade de Augustine – de se “aproximar” de James – é consistente com àquilo que a chama sua atenção e aquilo que está a buscar na relação. Podemos dizer que os comportamentos de aproximação de Augustine em relação a James estão em um fluxo dinâmico com aspectos de suas outras respostas de orientar-se e relacionar (descritas acima). Ou seja, aqui vemos uma “ação com significado”, o Evocar de Augustine de “cancelar os próprios planos” pode significar que ela está “fazendo as coisas funcionarem”; sendo portanto essa ação (para ela) muito apetitiva.
Até o presente momento destacamos o Relacionar, Orientar e Evocar, e como eles interagem em um fluxo dinâmico, em trechos da música; entretanto, como destaca a organização HDML, o Relacionar apresenta diversos níveis relacionais e dimensões. Dessa forma, o texto aqui então será dedicado para analisarmos o nível e as dimensões do relacionar.
Conforme apontado no início, Augustine relacionou aspectos do ambiente (ar salgado e ferrugem) e o mês no qual o relacionamento se deu (Agosto) às experiências vividas com James de forma funcionalmente equivalente. Entende-se que todos esses elementos (ar salgado, ferrugem, agosto, e James) estão relacionados entre si, e portanto constituem uma resposta relacional à nível reticular relacional (nível 3 do HDML).
Em determinados trechos, Augustine partilha como pensava/se sentia diante do romance enquanto ele ocorria: “I remember thinking I had you” (Eu lembro de pensar que tinha você). Podemos supôr que essa se trata de uma relação derivada, já que em nenhum momento da música James comunicou seus reais sentimentos ou intenções a Augustine. É possível que, o que Augustine aparentava ter aprendido sobre amor e/ou relações íntimas, por exemplo, “estar sempre disponível para o outro”, fizesse com que a personagem acreditasse, conforme tudo que estava acontecendo entre ela e o James, em uma relação duradoura e sólida. Ou seja, a experiência que ela estava tendo com o James era consistente com suas experiências e/ou ideias prévias sobre “amar” — o que pode indicar um relacionar de alta coerência (consistente com padrões anteriores) e de baixa derivação (repetidamente sendo praticado em cada ação trocada pelos dois). Entretanto, mesmo que minimamente, a narrativa de Augustine abria margem para incertezas e dúvidas quanto ao futuro: “Will you call when you’re back at school?” (Você vai ligar quando voltar pra escola?) — o que pode denotar uma certa flexibilidade em sua narrativa.
De forma notória, não podemos nos esquecer que a música representa Augustine após seu affair com James, ou seja, Augustine não está relatando o que está acontecendo, mas sim relatando o que já aconteceu. Portanto, no aqui-e-agora, Augustine está a responder ao seu próprio responder, isto é, níveis 4 e 5 do HDML (veja como o fluxo de ROEs não se cessam). Frente a esse processo, Augustine nota detalhes e novos aspectos do ambiente que anteriormente não percebia, o que provavelmente leva ela a derivar “Cause you’re never mine” (Você nunca foi meu) — podemos hipotetizar que o “Você nunca foi meu” pode ser uma resposta relacional de alta derivação devido a “novidade” dessa narrativa (isto é, algo novo e pouquíssimo praticado com base em suas respostas anteriores).
Por fim, o que a música expõe é a vulnerabilidade de Augustine, suas angústias e desejos. Ela queria ser amada por James, mas o coração do rapaz já pertencia à Betty (a namorada com quem estava compromissado). Trata-se de um desejo extremamente humano e, portanto, verbalmente construído. A unidade de análise ROE nos ajuda a compreender como o eu lírico, criado por Taylor Swift, responde o mundo ao seu redor e dá significado tanto ao romance vivido quanto aos próprios comportamentos emitidos no passado. Sendo assim, a forma como Augustine responde a própria experiência é um exemplo do fluxo dinâmico e contínuo de respostas de Relacionar, Orientar e Evocar.


