Escrito por Amanda Rosa, Aline Cristina da Silva e Camila Lourenço
A Psicologia tem se consolidado como uma profissão em ascensão no Brasil, ganhando cada vez mais visibilidade e credibilidade no mercado; segundo o CFP (2012) 89% das pessoas que exercem a Psicologia no Brasil são mulheres, e esse dado reforça o recorte de gênero necessário ao discutir os impactos da cultura da produtividade na saúde mental de psicólogas, especialmente em um cenário de crescente exposição digital e exigência de desempenho.
Com o avanço tecnológico, algumas atividades e até mesmo empregos, passaram a ser simplificados e incluídos como uma atribuição ao trabalho principal de muitos, sem necessariamente um aumento salarial (Kabat, 2022). A pandemia da Covid-19, em 2020, gerou mudanças na prática profissional através do atendimento psicológico online e abriu espaço para psicólogas ganharem maior visibilidade no mercado e aprenderem a se posicionar digitalmente.
Essa transição mostrou a necessidade de adaptação ao meio digital como uma estratégia de continuidade e expansão do trabalho clínico, e trouxe sem dúvidas, benefícios importantes para a valorização e maior autonomia profissional. Entretanto, passou a gerar comparações constantes, exigências de alta performance e uma sobrecarga de tarefas, como: produção de conteúdo, participação em cursos, mentorias e gestão de redes sociais, gerando uma pressão para que a profissional seja não apenas uma excelente psicóloga mas também uma referência online.
A possibilidade de um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e laboral através do trabalho remoto surge como uma das supostas promessas para a promoção da modalidade de trabalho remota. Porém, na prática, ocorre um prolongamento da jornada laboral, principalmente entre mulheres que acabam assumindo as atividades domésticas e cuidados com os filhos, representando também uma maior interferência entre a vida familiar e laboral. Corroborando para a dificuldade em identificar os limites entre pessoal e profissional (Messenger et al., 2017). Inclusive, sugerimos a leitura de um de nossos textos sobre essa temática: “Elas sofrem porque cuidam: a feminização do cuidado e a escuta clínica na ACT” https://comportese.com/2025/04/30/elas-sofrem-porque-cuidam-a-feminizacao-do-cuidado-e-a-escuta-clinica-na-act/
A expectativa de alta performance digital se manifesta em diferentes frentes: é preciso postar, engajar, responder mensagens, planejar conteúdos, oferecer produtos, escalar resultados. Segundo Franco (2018), em Quando o corpo fala, as novas tecnologias tornaram o trabalho cada vez mais intangível, mas também mais invasivo, dissipando as fronteiras entre o tempo de trabalho e o de descanso, uma realidade que impacta fortemente profissionais autônomas.
Apesar de orientarem os pacientes sobre a importância do descanso e autocuidado, muitas psicólogas enfrentam dificuldade em aplicá-lo, muitas vezes, por falta de tempo e pela pressão constante por produtividade. Isso contribui para quadros de exaustão e desconexão e na perspectiva da ACT, essa desconexão é compreendida como o afastamento do momento presente.
Estar presente no aqui e agora favorece uma escuta clínica mais atenta, maior autopercepção e práticas de cuidado mais alinhadas com os próprios valores, além de reduzir ruminações sobre o passado e preocupações com o futuro que aparecem nesse cenário. Como afirma Steven C. Hayes em Uma Mente Livre (2022), “a incapacidade de viver no presente reduz consideravelmente as informações disponíveis, arruinando a visão clara do momento atual”.
Na contemporaneidade, observa-se que o conceito de sucesso está associado não apenas aos benefícios financeiros decorrentes da condição de ser “bem-sucedido”, mas, sobretudo, à visibilidade, ao reconhecimento social e à construção pública da própria identidade. É como se, para “ser alguém”, fosse imprescindível “ser visto” (Silvestre, 2018). Nas redes sociais, o “sucesso” é medido por número de likes, comentários e compartilhamentos.
Para analistas do comportamento, esse fenômeno pode ser compreendido como uma relação contingencial complexa: reforçadores variáveis e intermitentes – curtidas, seguidores, contratos – mantêm o comportamento de exposição contínua, mesmo quando o custo (emocional, cognitivo e físico) se torna elevado. De acordo com Hayes et al. (2012), a ACT enfatiza como o controle excessivo de resultados e a tentativa de evitar experiências internas desconfortáveis (como medo de invisibilidade ou fracasso) podem paradoxalmente ampliar o sofrimento.
Assim, a psicóloga que se vê pressionada a “performar” online frequentemente internaliza a crença de que “não fazer o suficiente” é sinônimo de incompetência – ignorando que, como destaca Kismann (2021) em Cuidar de quem cuida, a sobrecarga e o esgotamento de terapeutas não decorrem apenas de escolhas individuais, mas de um sistema que valoriza métricas em detrimento de vínculos.
Diante desse cenário, emergem comparações constantes com pares que aparentemente “dão conta de tudo”, alimentando sentimentos de inadequação, culpa e autocrítica intensa – experiências amplamente discutidas no campo da ACT como barreiras à flexibilidade psicológica (Harris, 2019). Para muitas mulheres psicólogas, a promessa de autonomia se transforma, na prática, em uma armadilha de autovigilância, onde o descanso se torna quase um ato de resistência.
Em relação à presença digital, embora útil, deve ser conduzida com autenticidade e com limites saudáveis, preservando o espaço subjetivo da profissional. Além disso, é importante reconhecer que esse movimento também é retroalimentado dentro da própria categoria. Cada vez mais, psicólogas investem tempo e energia na produção de conteúdos, cursos, mentorias e produtos digitais voltados para outras psicólogas, criando um ciclo de consumo interno que, embora relevante para qualificação profissional, pode acabar deslocando parte do foco e do tempo que antes era destinado ao cuidado direto com os clientes. Esse cenário convida a uma reflexão crítica: até que ponto a dedicação à formação e ao suporte entre pares não tem ofuscado o compromisso central com a escuta, o vínculo terapêutico e o impacto real na vida de quem busca atendimento?
Dentro desse contexto, é importante fazermos um recorte racial sobre as mulheres negras, que ocupam posições ainda mais vulneráveis nesse cenário. Marcadas por processos históricos de exclusão social, racismo estrutural e precarização do trabalho, enfrentam a necessidade de provar sua competência, lidando com a falta de espaços de reconhecimento e visibilidade, além da internalização de discursos como “somos fortes” ou “não posso parar”, que alimentam a negação do descanso e dificultam o acesso ao cuidado, reforçando o adoecimento físico e mental.
Diante desse cenário de sofrimento, é fundamental fomentar espaços de apoio e troca entre profissionais, como rodas de conversa (presenciais ou online), supervisões com profissionais qualificados, intervisões entre colegas e trabalhos em equipe. Esses encontros fortalecem a conexão por meio da vulnerabilidade compartilhada, promovem acolhimento e apoio mútuo e ajudam a reduzir o sentimento de solidão. Com isso, contribuem para a diminuição dos níveis de ansiedade e depressão e para a prevenção do burnout entre as profissionais da psicologia.
REFERÊNCIAS
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Han, B.-C. (2015). A sociedade do cansaço (E. P. Giachini, Trad.). Petrópolis, RJ: Vozes. (Original publicado em 2010 como Müdigkeitsgesellschaft) Academia+9SciELO Brasil+9Wikipédia+9
Harris, R. (2019). ACT Made Simple: An easy-to-read primer on Acceptance and Commitment Therapy (2ª ed.). Oakland, CA: New Harbinger Publications.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change (2ª ed.). New York, NY: Guilford Press.
Kabat, M. (2022). Proceso De Trabajo, Legislación Laboral Y Empleo Femenino En El Teletrabajo. Caderno CRH , 35 , e022025. DOI: https://doi.org/10.9771/ccrh.v35i0.48366.
Kismann, P. (2021). Cuidar de quem cuida: psicólogas em contexto de burnout. [Dados da editora não encontrados].
Messenger, J.,Vargas L. O., Gschwind, L., Boehmer, S.,Vermeylen, G. & Wilkens, M. (2017) Working anytime, anywhere: The effects on the world of work. Eurofound and the International Labour Office, Geneva. DOI: http://eurofound.link/ef1658
Santos, J. H. C.; Santos, M. A. & Oliveira-Cardoso, É. A. (2024). Experiência de Psicólogas(os) Brasileiras(os) com Atendimento Psicológico Online durante a Primeira Onda da Pandemia de Covid-19. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 44, e261241. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-3703003261241.
Serrão C., Rodrigues A.R., Teixeira A., Castro L. & Duarte L. (2022). O impacto do teletrabalho em psicólogos durante a COVID-19: Burnout, depressão, ansiedade e estresse. Front. Saúde Pública 10:984691. Disponível em:https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpubh.2022.984691/full. Acesso em: 28 jul. 2025.
Silvestre, C. M. (2018). Um mercado de visibilidade e cifrões: influenciadores digitais e o empreendedorismo de si. 164 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal Fluminense, Niterói.

