Mulheres e relacionamentos abusivos: uma proposta de intervenção Comportamental Contextual

Escrito por Carolina da Silva e Juliana Felix de Melo

Nem sempre o que chamamos de “amor” é amor. E, na clínica, precisamos estar preparados para encarar essa verdade com a seriedade que ela exige. A romantização da violência, o apego ao sofrimento e a naturalização da dor em nome de vínculos afetivos continuam a ser realidades brutais para muitas mulheres, inclusive aquelas que chegam ao nosso consultório. Se não compreendermos isso de forma ampla, política e contextualizada, corremos o risco de tratar sintomas, mas manter estruturas adoecidas intactas [5].

Relacionamentos abusivos, especialmente marcados por violência psicológica, não são exceções; são a regra para um número assustador de mulheres que foram ensinadas desde cedo a aceitar pouco, silenciar muito e interpretar controle como cuidado. O abuso não começa com a agressão física [6]. Começa com o isolamento, com a desqualificação sutil, com a inversão sistemática da culpa, com o esvaziamento da autoestima [3]. E tudo isso pode ser facilmente invisibilizado, inclusive no setting terapêutico.

Antes de aplicar técnicas, é preciso reconhecer que estamos lidando com histórias atravessadas por violências estruturais, de gênero, de classe e de raça, que se atualizam no corpo e na psique dessas mulheres. É nesse ponto que o pensamento feminista deixa de ser opcional e passa a ser fundamento [11]. Não basta reconhecer que há sofrimento, precisamos entender de onde ele vem, como ele é sustentado e a quem ele serve.

Grande parte das mulheres que chegam à clínica já tiveram seu conceito de amor distorcido por uma cultura que as ensinou que se sacrificar é parte do afeto, que sofrer é prova de vínculo, que abrir mão de si mesma é o preço da convivência [10]. Essas mulheres frequentemente internalizaram desde cedo a crença de que não merecem mais, ou de que precisam suportar certas violências para não perder o pouco que acreditam ter. E isso não é acaso. É resultado de um modelo relacional patriarcal que confunde zelo com dominação, cuidado com controle, e amor com posse [9]. Ao longo do tempo, essas experiências corroem a autopercepção e fragilizam o senso de identidade, deixando marcas que se manifestam como sintomas clínicos: baixa autoestima, ansiedade, depressão, confusão emocional, desorganização comportamental e, muitas vezes, apego ao próprio agressor [11].

Por isso, trabalhar com essas mulheres exige uma postura terapêutica implicada, sensível ao tempo de cada uma e amparada por estratégias de manejo que envolvam tanto o apoio emocional quanto o fortalecimento prático. Uma das abordagens envolve orientar o rompimento progressivo com o agressor, utilizando recursos como o planejamento do “contato zero” (quando possível e seguro), desenvolvimento de habilidades de enfrentamento e, em paralelo, o cuidado com o desgaste emocional da própria terapeuta, que também pode ser afetada por essas narrativas intensas [4].

 A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) nos convida a ampliar a escuta clínica para além da redução sintomática, abrindo espaço para que a mulher em situação de abuso possa se reconectar com sua história de forma menos punitiva e mais compassiva. Em vez de reforçar discursos culpabilizantes, o trabalho passa para a desfusão de pensamentos autodepreciativos, como “eu atraio esse tipo de pessoa” ou “devo ser difícil de amar”, que operam como amarras verbais sustentando o ciclo de violência. Esses pensamentos não surgem “do nada”: são aprendidos, reforçados ao longo do tempo, e mantidos por contextos que naturalizam o sofrimento feminino [2]. O sofrimento humano está profundamente ligado à forma como nos relacionamos com nossas experiências internas e, em contextos marcados por opressão de gênero, essas relações são ainda mais adoecidas.

Esse esvaziamento da subjetividade não se dá apenas no campo individual. Para mulheres negras e periféricas, por exemplo, a história do abuso afetivo é inseparável de uma longa tradição de desumanização e solidão, de hipervigilância emocional e ausência de cuidado legítimo [12]. Para muitas delas, o amor foi ensinado como algo a ser merecido à força, nunca recebido com dignidade. Por isso, é comum que reproduzam vínculos marcados por sobrecarga afetiva e baixa reciprocidade, numa tentativa de manter algo que nunca foi verdadeiramente seguro [3].

Se não nos posicionarmos criticamente como terapeutas, corremos o risco de reproduzir, no setting, a mesma lógica que silenciou essas mulheres fora dele. Incorporar essas dimensões na clínica não é “ideologia”. É cuidado ético e é comprometimento com a história, com a escuta e com a responsabilização ativa diante das estruturas que produzem sofrimento [7].

Na prática clínica, isso se traduz na necessidade de uma escuta que considere o contexto sociocultural dessas mulheres. É essencial realizar entrevistas clínicas que não apenas coletem dados, mas que identifiquem histórias de opressão muitas vezes naturalizadas. Avaliar risco de violência, reconhecer sinais de manipulação emocional, mapear a rede de apoio (ou sua ausência) e oferecer psicoeducação sobre os tipos de abuso são passos fundamentais. Mais do que diagnosticar sintomas, é preciso compreender padrões de controle, dominação e culpa que atravessam os vínculos dessas pacientes [4].

Intervenções que se baseiam na Teoria das Molduras Relacionais (RFT) nos permitem analisar como a linguagem opera na manutenção do sofrimento. Molduras verbais como “sofrer por amor” ou “ciúme é sinal de paixão” não são apenas frases soltas são estruturas de sentido historicamente reforçadas, que atravessam gerações e sustentam práticas abusivas. Romper com essas molduras não é tarefa simples, nem rápida. Exige um trabalho clínico que vá além da psicoeducação e alcance os valores soterrados pela violência. Cultivar flexibilidade relacional é condição para que escolhas mais conscientes e alinhadas com aquilo que verdadeiramente importa se tornem possíveis [8]. É nesse processo que a linguagem deixa de aprisionar e passa a abrir caminhos.

A clínica pode proporcionar um trabalho com flexibilidade psicológica a nível estrutural, e aqui entra uma questão importante: muitas vezes, a mulher que permanece no abuso não está “sem força de vontade”, “sem noção” ou “dependente demais”, como ainda ouvimos por aí [3]. Ela está fusionada a pensamentos dolorosos, regras internalizadas ao longo da vida (“ninguém vai me amar assim de novo”, “relacionamento é difícil mesmo”), está engessada por anos de esquiva experiencial, por redes de apoio corroídas e por um senso de identidade desintegrado. Quando uma mulher associa “ciúmes” a “amor verdadeiro”, ou “obediência” a “respeito”, estamos falando de molduras relacionais que precisam ser quebradas e reconfiguradas com muito mais do que psicoeducação [1]. É preciso experiência direta, desfusão ativa, contato com o sofrimento e, principalmente, reconexão com valores que foram soterrados pela violência.

Na prática, uma intervenção comportamental contextual estruturada pode partir de três eixos:

  • Validação e escuta: Técnicas de entrevista clínica com foco em gênero, baseadas em escuta ativa e nomeação do sofrimento, são fundamentais nesse processo. Criar um espaço onde a mulher possa nomear o que viveu como violência. Isso pode levar tempo, especialmente quando o abuso veio mascarado de afeto por anos. É um trabalho de escavação da própria história.
  • Promover autoconhecimento e flexibilidade: Isso envolve a análise da autoestima, das crenças internalizadas (regras e autorregras) e a identificação de padrões de comportamento. Trabalhar aceitação, desfusão, self como contexto e valores não é apenas um “protocolo”, é uma reconstrução subjetiva. É ajudar a mulher a perceber que o que ela sente não precisa guiar o que ela faz, e que há um “eu” além da dor.
  • Reconfiguração relacional e atuação no mundo: Oferecer ferramentas práticas para sair da posição de isolamento e recuperar a capacidade de estabelecer limites e buscar relações mais equitativas é parte central da intervenção. Aqui, abordamos habilidades sociais, reativação (ou construção) de uma rede mínima de apoio, ampliação do repertório de enfrentamento e reconstrução de molduras verbais mais saudáveis. A mudança não é apenas interna, é comportamental, contextual, concreta.

Trabalhar com mulheres em situação de violência é um chamado para sair do conforto técnico e da fantasia de que basta a “neutralidade científica” para gerar transformação. Precisamos nos implicar, estudar criticamente as violências simbólicas e concretas que essas mulheres enfrentam, e reconhecer o papel da clínica como espaço de ruptura (e não de manutenção) das opressões [4].

No fim das contas, a intervenção eficaz com mulheres em relacionamentos abusivos não é só sobre ACT, RFT ou qualquer outra abordagem. É sobre coragem clínica. É sobre estar disposto a ver o que muitas vezes preferimos não ver. É sobre oferecer uma escuta que não romantiza, não infantiliza, não apressa. Mas que sustenta, confronta e caminha ao lado. E sim, isso exige muito mais do que técnica. Exige ética, consciência crítica e posicionamento. Exige reconhecer que nossa prática, mesmo quando silenciosa, nunca é neutra.

REFERÊNCIAS

  1. Perez, W. F., Almeida, J. H., de Rose, J. C. & Kovac, R. (2022). Teoria das molduras relacionais (RFT): Conceitos, pesquisa e aplicações. Centro Paradigma.
  2. Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change (2nd ed.). New York: Guilford Press.
  3. Pereira, D. C. S., Camargo, V. S., & Aoyama, P. C. N. (2018). Análise funcional da permanência das mulheres nos relacionamentos abusivos: Um estudo prático. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 20(2). https://doi.org/10.31505/rbtcc.v20i2.1026
  4. Silva, N. O., Silva, F. P., & Silva, P. F. (2024). Contribuição da psicologia enquanto ferramenta social mediante o descaso de mulheres que sofrem relacionamentos abusivos. Revista Científica da Faculdade de Educação Santa Terezinha, https://doi.org/10.37885/240917613
  5. Neves, B. M. (2022). Violência psicológica nos relacionamentos amorosos: um estudo sob a ótica da Teoria das Representações sociais.
  6. Jacinto, F. M., Felipe, J. F., & dos Santos Souza, S. (2024). ENTRE O DEVER E O SER: O IMPACTO DAS NORMAS SOCIAIS NA DINÂMICA DOS RELACIONAMENTOS TÓXICOS. LUMEN ET VIRTUS, 15(42), 6762-6774.
  7. Silva, P. C. M., & Assumpção, A. A. (2018). Relação entre violência psicológica e depressão em mulheres: Revisão narrativa. Temas em Terapia Cognitivo-Comportamental, 3(6).
  8. Törneke, N. (2010). Learning RFT: An Introduction to Relational Frame Theory and Its Clinical Application. Oakland, CA: New Harbinger.
  9. Butler, J. (2003). Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Editora Elefante.
  10. Hooks, B. (2019). Erguer a voz: Pensar como feminista, pensar como negra [Talking Back: Thinking Feminist, Thinking Black] (C. B. Maringolo, Trad.; T. Breda, Ed.). Editora Elefante.
  11. Herman, J. L. (1992). Trauma e recuperação: Da violência doméstica à violência política. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
  12. Ribeiro, D. (2018). Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras.
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Escrito por SIG Mulheres na ACBS

Coluna do Grupo de Interesse Especial (SIG) em Mulheres na ACBS Br. Espaço para discussão de variáveis de gênero nas terapias comportamentais contextuais. Projeto organizado por Isla Cezzani, Julia Moreira, Aline Cristina da Silva, Amanda Rosa, Ana Patricia Cavalheiro, Bruna Petinatti, Camila Lourenço, Carolina da Silva, Juliana Melo

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