Mesmo com as diversas disputas possíveis a respeito do que caracterizaria um modo de pensar como comportamentalista radical, um elemento cuja importância dificilmente poderia ser negada é a sua compreensão sobre o comportamento de cientistas em geral e a linguagem científica em específico. Não é à toa que tais questões tenham sido tratadas diretamente por B. F. Skinner (1945) no texto em que o pesquisador estadunidense nomeou publicamente pela primeira vez o seu modo de pensar a psicologia, e que as implicações de suas teses tenham sido destacadas nas reflexões posteriores de Willard Day sobre a epistemologia skinneriana (1969).
Podemos resumir algumas teses fundamentais sobre o assunto: 1. O comportamento, como relação entre organismo e ambiente, é um objeto de análise legítimo para a ciência; 2. O comportamento de cientistas é uma forma de comportamento e, portanto, é passível de ser explicado por uma análise científica; 3. O comportamento verbal também é uma forma de comportamento, que apenas difere por ser modelado e mantido pelas consequências mediadas pela comunidade verbal, ao invés de consequências imediatas do ambiente físico. Com isso, qualquer compreensão a respeito da análise do comportamento passa, em algum nível, pela compreensão do comportamento de analistas do comportamento e das características da comunidade de analistas do comportamento que compõe o nosso ambiente verbal.
Considero essas elaborações uma ótima desculpa para o meu interesse na comunidade brasileira de analistas do comportamento como um objeto de análise, um tópico de interesse e um tema de fofoca. Construímos muitos discursos entre as salas de aula, os corredores das universidades, os bares da universidades, os eventos científicos e os bares dos eventos científicos sobre a tal comunidade de analistas do comportamento, nossas impressões e sentimentos sobre ela.
No entanto, de fato, há uma forma muito mais simples e importante de contextualizar a questão: nosso compromisso com o desenvolvimento da análise do comportamento como campo profissional e científico exige que prestemos atenção nas pessoas que compõem essa comunidade, em seus contextos e circunstâncias de vida. E acredito que não seja preciso um longo tempo de reflexão para nos darmos conta de que aquela entidade monolítica à qual nos referíamos como “os analistas do comportamento” tem passado por uma série de mudanças. Talvez seja uma boa hora para debatermos de forma mais atenta essas mudanças e os seus possíveis impactos sobre o presente e o futuro do nosso campo.
Nossa comunidade se desenvolveu como um grupo bastante coeso, com um mito de origem bem conhecido relacionado à vinda de Fred Keller ao Brasil em 1961, formando uma geração de alunos e colaboradores que viriam a ser os pioneiros da análise do comportamento no país (ver Matos, 1998; Miranda & Cirino, 2010). Temos a criação do departamento de Psicologia da UnB em 1963, sob o comando de Carolina Bori e com uma forte participação desse grupo inicial, seguida da diáspora desses professores para diferentes regiões do país a partir, entre outras coisas, de uma debandada da UnB em função da perseguição do regime militar em 1965 (Todorov, 2006). Isso estabeleceu uma certa árvore genealógica de relações entre professores e alunos que, até pouco tempo atrás, poderia ser mais facilmente desenhada. Essa coesão se manteve por relações pessoais e institucionais, com uma comunidade frequentemente vista como isolada e autocentrada dentro da psicologia. Lembro de quando um professor da minha graduação brincava que bastaria que explodissem uma bomba no encontro anual da ABPMC e a análise do comportamento brasileira estaria extinta. Será que a piada ainda faz sentido no contexto atual?
Com isso, um primeiro elemento que quero destacar à conversa é a descentralização pela qual a análise do comportamento brasileira tem passado. Nas últimas duas décadas o ensino superior brasileiro passou por um acelerado processo de expanção e de interiorização, por meio de novos cursos e instituições no setor público e privado (Mancebo et al., 2015; Vilhena Junior, 2023). Esse processo promoveu condições para a formação gradativa de novas comunidades regionais de analistas do comportamento pelo interior do país, com novas redes de relações e práticas culturais próprias. Um exemplo disso é a ampliação dos eventos regionais, como as Jornadas de Análise do Comportamento (ver Souza & Kanamota, 2022). Ainda, podemos considerar que muito de nossas práticas relacionadas às interações pessoais e a chegada de novos membros à comunidade passou por um lapso relevante com o isolamento criado pela pandemia de Covid-19. As condições da pandemia ainda se somaram com as tendências de consolidação do ensino à distância e dos eventos acadêmicos virtuais. Como outros fatores, há o crescimento de outras organizações agregando analistas do comportamento, como é o caso da ampla adesão à ACBS Brasil, bem como a criação de novas subcomunidades por meio da produção de conteúdo nas redes sociais.
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Embora não possamos considerar que a ideia de uma história universal ou uma comunidade unitária da análise do comportamento brasileira corresponda totalmente à verdade em qualquer momento histórico, o que vemos é um aumento dos pequenos grupos locais e a diversificação das histórias e das relações com as quais novos membros se relacionam com o nosso campo. Por um lado, isso cria uma série de desafios na formação e institucionalização da área, e especialmente à nossa compreensão das tendências e necessidades da análise do comportamento como categoria profissional. Por outro lado, podemos ter mais condições à democratização e diversificação do campo, abrindo espaço para novos sujeitos sociais, novas perspectivas e influências ao se pensar e construir a ciência do comportamento.
Outro elemento tradicional do nosso imaginário a respeito da análise do comportamento brasileira é a sua identificação com a psicologia experimental em geral, e com o laboratório didático e a caixa de Skinner em específico (Miranda & Cirino, 2010). Não é incomum que todos esses elementos sejam tratados quase como sinônimos entre si, o que se conecta diretamente ao compromisso histórico com o uso do laboratório como um recurso fundamental na formação de analistas do comportamento no país. Isso tudo se demonstra mesmo em nossas escolhas estéticas, com ratinhos e jalecos estampando um certo behaviorismocore, cujo bom gosto podemos discurtir em outra ocasião.
Tais identificações parecem perder força e sentido no cenário atual. Em primeiro lugar, observa-se o laboratório didático perdendo espaço devido a questionamentos sobre sua pertinência pedagógica, validade ética e (talvez principalmente) a sua viabilidade institucional e financeira (ver Cirino et al., 2017). Paralelamente, o mercado de trabalho em saúde mental tem se tornado uma porta de entrada cada vez mais relevante para novos profissionais na área. A alta demanda por intervenções baseadas na análise do comportamento aplicada voltadas a crianças neurodivergentes, somada à sua forte identificação entre abordagem teórica e prática profissional, faz com que cada vez mais estudantes e profissionais que podem ter tido pouco contato ou interesse prévio pelo comportamentalismo radical ingressem nesse campo não por uma preferência teórica, mas por determinações de mercado. Em outra frente, os modelos estrangeiros das psicoterapias contextuais, devido a seus desenvolvimentos históricos distintos da terapia analítico-comportamental brasileira (ver Leonardi, 2015), expandem-se e se consolidam como abordagens psicoterapêuticas até certo ponto autônomas. Desse modo, o interesse ou a necessidade por uma compreensão mais aprofundada da análise do comportamento frequentemente surge apenas após a adoção das psicoterapias contextuais como abordagem de preferência por parte de profissionais da psicologia (ou nem surge).
Parece haver, enfim, um certo nível de reposicionamento do campo aplicado como a via de acesso e identificação com a análise do comportamento. Mesmo que seja esperado que esses campos agreguem o maior contingente de profissionais da psicologia, o que estou apontando aqui é como este se torna um ponto de partida, e não algo que decorre do contato de estudantes com a ciência skinneriana. O desafio resultante pode ser especialmente identificado na prática dos cursos de especialização, que enfrentam o desafio da formação continuada de profissionais que muitas vezes já exercem práticas em análise do comportamento, mas enfrentam lacunas fundamentais em sua formação. Precisamos pensar ainda em como isso rearranja as prioridades dentro da nossa ciência e as possibilidades de comunicação entre estudantes e profissionais com esses diferentes panos de fundo em sua relação com o comportamentalismo radical. Há um impacto ainda de ordem estética, qual a rede simbólica e os valores com os quais a análise do comportamento é identificada e passará a ser identificada? Para o funcionamento de uma comunidade isso está longe de ser uma questão irrelevante.
Por fim, quero destacar uma terceira mudança especial no cenário da análise do comportamento brasileira. Por volta de dez anos atrás, mulheres analistas do comportamento organizadas a partir do Coletivo Marias e Amélias passaram a ocupar espaços tradicionais da análise do comportamento (como os próprios encontros anuais da ABPMC) com atividades e discussões vinculadas aos movimentos feministas (ver Linhares, 2023). Tal processo, é claro, não ocorreu sem custos pessoais e o enfrentamento a barreiras e oposições dentro da própria comunidade. Desse marco inicial, somado a outras iniciativas e fatores sócio-históricos, se abriu espaço para a consolidação de uma série de projetos institucionais e ações informais que trouxeram as pautas anti-opressão e o compromisso com atores sociais concretos para o centro da análise do comportamento brasileira. Isso se apresenta na formação de novos coletivos, grupos de estudos, eventos e publicações sobre questões como raça, sexualidade, gênero, regionalidade ou (em menor grau) de classe.
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O impacto da interface da ciência do comportamento com pautas relacionadas a pautas anti-opressão e identidades políticas não pode ser negligenciado. Nossa tradição é a de uma ciência básica que busca a compreensão do comportamento em um alto grau de universalidade, cuja preferência se dá aos processos comportamentais que se apliquem às diversas espécies vivas. Em nosso imaginário geral, características particulares dos sujeitos que se comportam são tradicionalmente uma variável a ser controlada para garantir a generalização. O desafio colocado pelos avanços conquistados desde o Coletivo Marias e Amélias é o de uma ciência do comportamento que tenha uma compreensão integrada dos sujeitos em suas realidades sócio-históricas e suas condições particulares, o que exige novas ênfases em marcos teóricos e metodológicos, e uma maior atenção a respeito das interfaces do comportamentalismo radical com o debate político público, os espaços de militância e as contribuições das ciências sociais. Com isso tudo, é fortalecida a necessidade de que o comportamentalismo radical informe uma teoria dos sujeitos sociais, para além das categorias básicas de organismo e ambiente (ver Flores Júnior, et al., 2024).
Talvez ainda mais importante seja o modo como tais aproximações criam um contexto mais seguro e atrativo para o envolvimento de estudantes e profissionais pertencentes às minorias sociais, que passam a ver a possibilidade de que a ciência do comportamento contribua com a compreensão e a intervenção sobre problemas concretos que experienciam em suas vidas. O caminho se abre para uma maior possibilidade de acolhimento e reconhecimento da diversidade, e para a contribuição da diversidade no delineamento dos rumos do futuro da nossa ciência. Nesse caso, precisamos de estratégias de garantia para que nossa comunidade esteja receptiva à diversidade, e que a participação desses grupos alcance os diferentes espaços institucionais e informais do nosso campo, sem incorrer na criação articial de bolhas ou nichos nos quais seus debates circulem internamente sem afetar o movimento geral da análise do comportamento nacional.
Embora esse panorama seja superficial e limitado, o que nos interessa é apontar a relevância de dedicarmos alguma atenção à nossa comunidade, suas características, seus contextos e suas mudanças. Destaquei aqui como parece haver (a) uma descentralização e pulverização da análise do comportamento no território brasileiro, (b) um fortalecimento do campo aplicado como a via de entrada de novas pessoas em nossa comunidade e (c) um vetor de mudanças teóricas, institucionais e comunitárias a partir da interface com as identidades políticas e as pautas anti-opressão. Uma comunidade e suas práticas não costumam se transformar de uma hora para a outra, mas esses processos se mantiveram por tempo o sufiente para que não seja surpresa que seus efeitos tenham consolidado mudanças. É necessário compreender a ciência como um processo vivo, com constantes disputas e transformações. A prioridade não é a algum tipo de apego moral com o velho ou o novo, mas o fomento de diálogos que tenham os rumos da nossa comunidade como um assunto de interesse, reconhecendo seu papel fundamental no desenvolvimento da ciência do comportamento (e de nós mesmos, como parte dessa comunidade). Afinal, o que sabemos e o que desejamos sobre os caminhos da nossa comunidade e da nossa ciência?
Referências
Cirino, S. D., Miranda, R. L., Gonçalves, A. L., Miranda, J. J., Vieira, R. D., & do Nascimento, S. S. (2017). Refletindo sobre o laboratório didático de Análise do Comportamento. Perspectivas em Análise do Comportamento, 1(1), 15-27. https://doi.org/10.18761/perspectivas.v1i1.17
Day, W. F. (1969). Radical Behaviorism in Reconciliation with Phenomenology. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 12(2), 315-328. https://psycnet.apa.org/doi/10.1901/jeab.1969.12-315
Flores Júnior, C. R., Laurenti, C., Borba, A., & Tourinho, E. Z. (2024). Rumo a uma Psicologia Social Comportamentalista Radical. Acta Comportamentalia, 32(4), 647-666. https://doi.org/10.32870/ac.v32i4.88494
Leonardi, J. L. (2015). O lugar da terapia analítico-comportamental no cenário internacional das terapias comportamentais: um panorama histórico. Perspectivas em análise do comportamento, 6(2), 119-131. https://doi.org/10.18761/pac.2015.027
Linhares, Y. (2023). Contingências envolvidas no estudo do feminismo por analistas do comportamento brasileiras: Uma investigação exploratória com as autoras do livro Debates sobre Feminismo e Análise do Comportamento. [Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Londrina]. Repositório Institucional da Universidade Estadual de Londrina. https://repositorio.uel.br/items/bbb13659-75a4-4564-b923-db849b2cfa85
Mancebo, D., Vale, A. A. D., & Martins, T. B. (2015). Políticas de Expansão da Educação Superior no Brasil 1995-2010. Revista Brasileira de Educação, 20(60), 31-50. https://doi.org/10.1590/S1413-24782015206003
Matos, M. A. (1998). Contingências para a Análise Comportamental no Brasil. Psicologia USP, 9(1), 89-100. https://doi.org/10.1590/S0103-65641998000100014
Miranda, R. L., & Cirino, S. D. (2010). Os primeiros anos dos laboratórios de Análise do Comportamento no Brasil. Psychologia Latina, 1, 79-87. https://psicologia.ucm.es/data/cont/docs/29-2013-04-25-art5.pdf
Skinner, B. F. (1945). The operational analysis of psychological terms. Psychological Review, 52(5), 270–277. https://doi.org/10.1037/h0062535
Souza, F. M. S., & Kanamota, J. S. V. (Eds.). (2022). Diálogos em Análise do Comportamento (Volume IV). Instituto Walden4.
Todorov, J. C. (2006). Behavior analysis in Brazil. Avances en Psicología Latinoamericana, 24, 29-36.
Vilhena Junior, W. M. (2023). Expansão e interiorização do ensino superior no início do século XXI no Brasil. Revista Amazônida, 7(01), 1-17. https://doi.org/10.29280/rappge.v7i01.11152