Não basta querer! Impactos do autoconhecimento e da clareza de valores no processo de mudança comportamental

Algumas vezes os pacientes trazem para o consultório metas concretas e objetivas, como passar em uma prova, perder alguns kilos, fazer atividade física, etc. e se queixam de não conseguir executar aquilo que eles sabem que “teriam que fazer” para alcançar o que almejam. “Eu sei que eu preciso”, “Isso mudaria a minha vida”, “É só fazer”, são algumas das frases que acompanham, e em geral as emoções mais comuns são frustração, tristeza ou mesmo raiva pela estagnação em que se percebem.

Cabe aqui o esclarecimento que para uma mudança comportamental efetiva precisamos ter como primeiro pilar o autoconhecimento. Diferente do que vende o senso comum de que basta querer e simplesmente fazer o que deve ser feito, a leitura da Psicologia Comportamental traz um olhar que contextualiza tais dificuldades a partir da história de vida do sujeito, uma vez que cada individuo apresenta déficits e habilidades psicológicas extremamente singulares. “É necessário autoconhecimento para compreender os próprios valores e limitações, posicionando-se realisticamente no presente em relação ao próprio nível de desenvolvimento pessoal, alcançado em sua história” (Poubel & Rodrigues, 2018).

Isso não quer dizer que estamos presos e fadados ao que nossa história nos proporcionou e sim que quanto maior o meu nível de autoconhecimento acerca do que já tenho de habilidade e o que ainda preciso aperfeiçoar em melhores condições estarei de buscar novos caminhos e compreender quais possíveis reforçadores e aversivos estão em jogo quando realizo minhas ações.

O autoconhecimento não se restringe a saber descrever e relacionar o passado, mas também é essencial um olhar sobre o futuro, possíveis anseios, projetos e uma maior conexão com a pessoa que se deseja ser. Nesse intermédio encontramos o presente e a possibilidade de reescrever a sua história e dar passos mais concretos em direção a uma vida valorosa.

Mas afinal, o que seriam valores? E como eles contribuem para essas mudanças?

A partir do embasamento da Terapia de Aceitação e Compromisso, “valores são consequências livremente escolhidas e verbalmente construídas de padrões de atividades contínuos, dinâmicos e em evolução que estabelecem reforçadores predominantemente para essa atividade que são intrínsecos ao engajamento no próprio padrão comportamental valorizado” (Wilson & DuFrene, 2009, pág.66 apud Hayes, Strosahl & Wilson, 2021, pág. 239). Ou seja, valores são individuais, livremente escolhidos e tem um caráter apetitivo iniciado no momento presente e estendido ao longo do tempo. Nesse sentido, se nos damos conta (pelo autoconhecimento) de uma incoerência e um distanciamento entre o que fazemos e aquilo que descrevemos como importante e valorosos a nós, abrimos espaço para alternativas comportamentais que nos conectem mais a quem efetivamente desejamos ser. Obviamente saber (assim como querer) nem sempre basta! Será necessário um intenso trabalho acerca de aceitação de emoções desagradáveis que podem emergir no processo de mudança, um maior distanciamento das ideias pré-concebidas acerca de si, dos outros e das situações, um maior contato com o que acontece no aqui e agora, uma noção de self mais fluida e contextualizada e a expressão dos valores não somente em termos abstratos, mas também através de um compromisso.

Se conhecer e saber descrever de forma mais acurada a si, seu entorno, suas relações e especialmente os próprios valores servem como bússolas em direção a ações concretas mais compatíveis ao que faz sentido a nós, tornando a nossa existência mais coerente e com maior senso de vitalidade.

Referências Bibliográficas

Hayes, S.C., Strosahl, K.D., Wilson, K.G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed

Poubel, L. & Rodrigues, P. (2018). Manual de inteligência psicológica para felicidade integral: As 10 habilidades para as 6 dimensões da vida Avaliação e técnicas do coaching multidimensional. 1ª edição – Rio de Janeiro: Letras e versos

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Escrito por Mariana Poubel

Graduada em Psicologia pela UFRJ (2012) e mestre em Saúde Mental pelo IPUB/UFRJ (2015). Fez curso de formação em Terapia Cognitivo Comportamental para adultos e infanto juvenil, curso de capacitação em análise do comportamento e formação em terapias contextuais.
Atua como terapeuta, supervisora e mentora.

Email para contato: marianapoubel@gmail.com