Um Mindfulness “Engajado” não tem futuro: uma provocação

Um Mindfulness "Engajado" não tem futuro: uma provocação 1

A prática de Mindfulness, tanto em seu contexto religioso quanto secular, está diretamente ligada ao desenvolvimento de maior “lucidez”. Está relacionada ao entendimento de que nossa atenção, de tão flutuante e capenga, impede a clara percepção acerca de quem somos, de onde estamos, e do que realmente importa na vida. Mais do que isso, a prática de Mindfulness apresenta-se como um caminho, uma pequena, mas fundamental, parte do caminho para a melhor compreensão, manejo (e quiçá cessação) do sofrimento. Daí decorre perguntar: que sofrimento? Como ele é?

Vou contar uma história sobre sofrimento.

É sobre John, um americano que, ao sofrer com algo simples, e que aflige a todos, desenvolve uma técnica simples de alívio do sofrimento. John sentia uma dor no pé que não compreendia. Explorando a dor com atenção plena, usando as mãos, percebeu que era um caco de vidro que sorrateiramente havia se engatado profundamente no seu calcanhar. Com calma, desenvolveu uma forma única e hábil de arrancar cacos de vidro do pé. Seus amigos e familiares, desde então, nunca mais sofreram com cacos de vidro, farpas de madeira ou ferrões de abelha nos pés.

Sabemos que a experiência de pisar em cacos de vidros não é só do John, ou minha. Ela é universal. Neste exato momento, em algum lugar do mundo, alguém acaba de pisar em um caco de vidro, espinho, farpa de madeira ou ferrão de abelha. Fato sabido é que quando outras pessoas pisam objetos cortantes, e não você, a dor não te encontra, não é tua. A dor do outro é uma experiência distante e alheia. Essas dores, porque estão fora de nós, dos nossos olhos ou ouvidos, costumam não nos interessar (não é comigo, então beleza, segue vida).

Se eu não sinto, se não me toca em um nível próximo, me alienar é compreensível, e até agradável.

Mas para que eu possa fazer uma reflexão CRÍTICA como essa eu preciso de mindfulness, daquela lucidez que falei no começo. Caso contrário, bastaria eu tirar cacos de vidros com a técnica de John dos meus próprios pés, e pronto. Tiro a fonte da dor, o sofrimento cessa. Segue o baile. Usamos essa lógica para muitas coisas que causam sofrimento. Por exemplo: tenho fome > abro minha geladeira > pego uma geleia de pimenta > abro o saco de pão 7 grãos integral > passo a geleia no pão > como > como de novo > mais uma vez > não tenho fome. Neste exemplo, minha fome foi resolvida. Ponto Final. Será?

A lucidez de Mindfulness, tão avassaladora, me lembra que na rua da minha casa certamente haverá alguém que não tem pão, geleia de pimenta, muito menos uma geladeira.

Neste sentido, mindfulness é algo desconfortável, porque me invoca uma lucidez de como algumas coisas que eu não percebia antes como “privilégios” de fato são.

Ter várias roupas no armário, ter uma casa (ainda que de aluguel), ter um carro, ter comida, ser doutor em Psicologia, ser “considerado alguém”, ter um plano de saúde, pagar pela educação da minha filha, poder comer pizza sempre que eu quiser, etc etc etc. Mindfulness me lembra, a cada minuto, de saborear com alegria tudo que tenho (ahhh que bom! Obrigado meu Deus!), mas também que muitas e muitas pessoas não tem nada. Estão com cacos de vidros por todo o corpo.

Frente a isso, a lucidez do Mindfulness, agora ENGAJADO, me impulsiona no ímpeto de algum assistencialismo. PRECISO AJUDAR, pois estou lúcido! Daí eu começo a doar uma grana para os Médicos Sem Fronteiras ou para a UNICEF. E levo um almoço para o morador de rua da minha esquina. Opa! Isso é legal. Só que eu descubro que esse assistencialismo, apesar de valoroso, não muda as condições estruturais do sofrimento coletivo. Puxa vida! Também descubro que ser homem, branco, heterosexual, me traz uma série de privilégios dos quais eu não tinha LUCIDEZ.

Lembra que tudo começou com um caco de vidro que – eventualmente – atingiu os pés do John e de outras pessoas, que não eu? Foi assim que começou. Mas poderia ter parado quando eu tirei o caco do meu pé, do meu apenas. Porque é bom que eu não sofra, e pode bastar. MEU pé não dói mais, porque me preocupar com outros pés, de outras pessoas que nem sei quem são?

Aliás, John descobriu que poderia ensinar sua técnica para outras pessoas, em um workshop de 3 dias, por uma quantia de dinheiro. Uns 2000 dólares (com desconto). Eu tenho essa grana, daí eu paguei e fui pros USA. Aproveitei e parei na Disney. Eu aprendi com o John e agora poderia ensinar pessoas (a ensinarem outras pessoas) a tirarem, através de uma técnica americana, cacos de vidros dos seus pés. Sou certificado na técnica do John. Mas como EU SOU lúcido e assistencialista, eu criarei cotas para negros, transexuais e indígenas fazerem meu curso internacional sobre tirar cacos de vidro dos pés. Eu levarei para as favelas e para as tribos indígenas; levarei para a Casa Mirabal, aqui em Porto Alegre, que acolhe mulheres vítimas de violência doméstica!!

BUMMMM! Mindfulness me ACORDA e vem uma voz: Tiago, será que é isso que as pessoas querem? Será que é isso que precisam? A Casa Mirabal precisa de 25.000 reais para seguir seu trabalho! E não do seu belo curso internacional! Acorda TIAGO!!! Mais do que isso: será que não sou quem preciso aprender algo com eles sobre cacos de vidros e outras formas de sofrimento? De onde vêm minha suposta arrogância de achar que o que eles precisam é do meu curso americano sobre cacos de vidro? Cadê sua suposta lucidez, Tiago?

Percebam que a lucidez de mindfulness acaba me deixando em uma enrascada. Quando começo a olhar profundamente, para além do que se vê, e percebo que muito do que ocorre está enraizado em estruturas complexas de um sofrimento que é interconectado, me descubro um crítico voraz, p. ex., do sistema capitalista. Um crítico contundente dos valores neoliberais que definem o que é uma “família”; o que é “felicidade”; e o que significa “sofrer”.

Me descubro curioso em ler Marx! (COMUNISTA, grita meu vizinho!). Logo eu, filho de militares católicos do interior de São Paulo. Me descubro um tipo comum de colonizador, capitão do mato de gringo de Harvard, repetindo a técnica de John, ao custo de milhares, para quem puder pagar. Me descubro dentro uma lógica vil que inclui do assistencialismo ao “cause washing” e outras formas sorrateiras de entorpecimento da lucidez. Me descubro querendo fazer algo para aliviar minha “culpa histórica” sobre racismo, homofobia e machismo.

Mas se quero mesmo ajudar eu preciso é chegar desarmado e LÚCIDO nas pessoas e no mundo. Deixar de lado meu “assistencialismo aliviador-de-culpa-cristã” – reforçar minha consciência acerca dos meus privilégios – e perguntar dentro da favela: “olha galera, eu quero ajudar. Como eu posso ajudar agora? Você aceita minha ajuda? Tem algo que eu possa fazer por vocês?”. Talvez eles te convidem a sentar para escutar suas histórias, a lutar contra um presidente fascista que ferra com a vida deles, ou contra a milícia, ou para levantar os muros de uma escola local; ou até mesmo para ir até Brasília e lutar contra o marco temporal. Ou para fazer um curso sobre branquitude, privilégios, cause washing, não-binarismo de gênero, etc. Ué? Você não ofereceu ajuda? Porque deveria ser com o curso do John sobre tirar cacos de vidro dos pés? Não são os indígenas ou negros que tem que salvar você de você mesmo, ou do sistema. É você, sou eu, quem temos que des-aprender para nascer na lucidez do mindfulness. Se quer ajudar, lute contra o sistema que te aliena – por dentro e por fora – e sem justificativas. Assuma um lado. Des-colonize-se. Assuma suas contradições. Abandone o tom professoral.

Mindfulness Engajado parece irreal, porque está em um lugar muito higiênico, muito calmo, muito redutor de estresse da classe-média cansada, muito colonizado, muito branco, muito tradicional, muito qualificado, muito esclarecido, muito acadêmico, muito Partido Novo, muito MDBista, muito Artur Lira e, pasmem – por vezes – muito Bolsonarista. Sabe por que Mindfulness Engajado não tem futuro? Porque você acabou de pensar:”ihhhhhh, não tem nada a ver misturar mindfulness com política”.

Saia da bolha. Esploda a bolha. Venha, e me contrarie.

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Escrito por Tiago Tatton

piadista inveterado, torcedor do Flamengo e pai da Clara Luz. Nas horas vagas é psicólogo, especialista e mestre em Ciência da Religião (UFJF/MG), doutor em Psicologia (UFRGS/RS e King´s College Londres), pós-doutor em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS/RS). Diretor Geral da Iniciativa Mindfulness. Em 2016 completou o Mindfulness Advanced Teacher Intensive pela Universidade da California em San Diego (USA).