Avançando a proteção de crianças e adolescentes no mundo pós-pandemia: trocando experiências

A pandemia do COVID-19 teve, e ainda tem, um peso especialmente grande para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. O fechamento das escolas, o modelo de aulas online, a falta de contatos com amigos e familiares, entre outras mudanças causadas pelo vírus, afetaram de maneira singular esses grupos. Um dos fatores que tem recebido destaque da mídia, profissionais e cientistas é a possibilidade de aumento da violência contra crianças e adolescentes.
Essa possibilidade deixou diversos sistemas de proteção ao redor do mundo em alerta. Porém, a falta de dados confiáveis sobre esse possível aumento é uma das barreiras enfrentadas. Considerando essas dificuldades, um grupo de pesquisadores vinculados à ISPCAN (International Society for the Prevention of Child Abuse and Neglect) elaborou um modelo ecológico dos aspectos a serem avaliados em casos de violência contra a criança durante e após a pandemia de COVID-19 (Katz et al., 2020).
Os autores apresentam 3 contextos de desenvolvimento distintos: 1) interações interpessoais e aspectos individuais, 2) vizinhança e 3) comunidade e características culturais. Os autores destacam que uma agenda de pesquisa sobre essas temáticas deve estar presente no futuro, considerando que muitos serviços de proteção não conseguiram realizar suas funções de maneira adequada devido à corte de financiamento ou interrupção de atividades durante a pandemia. Irei focar nos aspectos futuros das pesquisas que podem ajudar nos caminhos de intervenção.
O primeiro aspecto seria a investigação dos impactos da pandemia, do isolamento social e do lockdown (em países que o implantaram) no apego de crianças e adolescentes. É reconhecido que a violência contra a criança afeta e desorganiza comportamentos de apego (Morton & Browne, 1998), contudo o quanto o isolamento e falta de contato com figuras de apego secundário podem afetar essa vinculação precisa de mais estudos e esforços clínicos para compreensão. Situação semelhante pode ser observada com o apego com professoras e educadoras, em especial, em crianças pequenas. O afastamento das atividades presenciais na escola, um dos principais caminhos de proteção das crianças no Brasil e no mundo, também tem impactos além do educacional. Pesquisadores e profissionais precisarão atuar de maneira coordenada para identificar potenciais dificuldades advindas do isolamento e de possíveis maus-tratos para verificar dificuldades ou possíveis caminhos de promoção de segurança e vinculação para crianças.
Para as comunidades, cientistas e profissionais devem avaliar o impacto da pandemia nas famílias, mas também nos serviços. Ao redor do mundo, serviços de proteção as crianças têm sofrido com corte de verbas e diminuição de pessoal. Como esses cortes e menor alcance dos serviços tem afetados as crianças e quais os caminhos para fortalecimento dos serviços são questões prementes na área. Adicionalmente, a pandemia trouxe um fator de risco para a violência contra a criança, o desemprego. A crise econômica decorrente da pandemia aumentou o desemprego em todo o mundo e, em muitos países, sem alternativas financeiras para milhões de famílias. O impacto desse fator de risco na violência e no desenvolvimento de crianças e adolescentes merece atenção nos próximos anos.
Por fim, qual impacto da COVID-19 nas políticas públicas e na cultura e como essas mudanças podem afetar condições existentes na sociedade pré-pandemia como o racismo e a pobreza? Investigar e fornecer subsídios para uma atuação baseada em evidências é uma necessidade urgente da ciência psicológica. Contudo, questões sociais e econômicas também irão exigir posturas e posições dos psicólogos em busca de minimização de risco e potencialização de capacidades para garantir um desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes em todos os países e contextos.
Para ler o artigo completo: https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2020.104824

Para saber mais:

Katz, C., Priolo Filho, S. R., Korbin, J., Bérubé, A., Fouche, A., Haffejee, S., … & Varela, N. (2020). Child maltreatment in the time of the COVID-19 pandemic: a proposed global framework on research, policy and practice. Child Abuse & Neglect, 104824. https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2020.104824

Morton, N., & Browne, K. D. (1998). Theory and observation of attachment and its relation to child maltreatment: A review. Child Abuse & Neglect, 22(11), 1093-1104. https://doi.org/10.1016/s0145-2134(98)00088-x

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Sidnei R. Priolo Filho

Escrito por Sidnei R. Priolo Filho

Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Forense da Universidade Tuiuti do Paraná em Curitiba.