Maquiavel Behaviorista

As ideias “Maquiavélicas”

Nicolau Maquiavel foi sem dúvidas um dos autores mais importantes da história da política e da filosofia. Sua principal obra “O Príncipe” [1], trouxe conceitos que revolucionaram a forma de se pensar da sua época. Por mais que Maquiavel seja constantemente criticado, e suas ideias sejam interpretadas como “maldosas ou cruéis”, a sua importância nos estudos da política e do comportamento humano é inegável.

Muitas de suas famosas ideias que romperam com o pensamento político utópico que prevalecia na época saíram deste livro. Frases famosas como “é melhor ser temido do que ser amado” e “os fins justificam os meios” (apesar dele não ter escrito realmente com essas palavras mas ter desenvolvido a ideia) fazem deste livro um dos mais importantes da história. Porém, a principal afirmação de Maquiavel que analisaremos primeiramente será: “quando fizer o bem, faça-o aos poucos, quando for praticar o mal, é fazê-lo de uma vez só” [1]. A obra nos mostra que essa era uma das várias dicas que Maquiavel dava para um príncipe ser bem sucedido na época. Segundo ele, esses seriam os segredos do sucesso e da manutenção de um reinado em meio à tantas guerras e insurreições da população.

O Príncipe foi um grande marco na história por ser um manual de dicas sobre como um governante da época deveria lidar com o comportamento da população, de modo a romper com os pensamento utópicos de que o líder deveria ser “bondoso e virtuoso”. Maquiavel defendia que o rei deveria também ser maldoso e duro com a população quando necessário. O modo como suas ideias se comprovaram pertinentes com o tempo impressionam estudiosos e pensadores até os dias de hoje.

De modo a analisar o livro sob a perspectiva behaviorista, colocaremos o comportamento da população como o centro da análise. Podemos assim perceber que as colocações de Maquiavel “fazer o bem” e “fazer o mal” (por parte do rei para com a população), nada mais seriam do que reforçar e punir, respectivamente, o comportamento do seu povo.

O mais interessante nessa sentença de Maquiavel seria a diferença na forma como seriam aplicadas o reforçamento e a punição, e porque esse modelo seria eficiente para a manutenção e aprovação do seu reinado.

Esquemas de reforçamento

Já que acreditamos que Maquiavel usou de reforçamento para manter um certo comportamento da população, revisemos os esquemas de reforçamento da psicologia behaviorista, através das explicações de Moreia e Medeiros [2], nas quais eles pontuam os dois principais tipos de reforçamento, o contínuo (CRF) e o intermitente. A principal diferença entre ambos é que o CRF ocorre em todas as respostas comportamentais, enquanto o reforçamento intermitente ocorre com algumas “paradas”, que dependem de outros fatores conforme o seu tipo.

Os tipos de reforçamento intermitentes são: razão fixa (FR), razão variável (VR), intervalo fixo (FI), e intervalo variável (VI). Na razão fixa, é necessário um certo número de respostas para que ocorra o reforçamento, esse número de respostas é único e não se altera, já na razão variável, esse número de respostas exigido para o reforçamento pode se alterar. Já no intervalo fixo, o que se leva em consideração para que haja o reforçamento é um tempo já pré-estabelecido e que não se altera, enquanto que no intervalo variável esse tempo pode variar. Lembrando que mesmo nos intervalos fixo e variável o tempo sendo o mais importante para o reforçamento, é necessário que haja pelo menos uma resposta por parte do indivíduo [2].

Analisando de modo generalizado o conselho de Maquiavel, “fazer o bem aos poucos” seria nada mais do que reforçar o comportamento de obediência, submissão e respeito ao rei, por parte dos cidadãos, em um intervalo de tempo variável, sendo assim um reforçamento intermitente de intervalo variável. Os resultados que Maquiavel buscava com essas ações seriam a manutenção e o aumento da obediência, submissão e respeito ao rei, o que seria uma alta e constante taxa de respostas do povo, conforme o uso do reforçamento.

A eficácia do método comportamental

Segundo Moreira e Medeiros, esses resultados preteridos por Maquiavel são características comuns ao reforçamento intermitente de intervalo variável como podemos observar na seguinte afirmação: “Apesar de ser um esquema de intervalo, o VI produz um padrão com uma taxa relativamente alta de respostas. Uma vez que o organismo não tem como prever quando o reforçador estará disponível, ele responderá quase que o tempo todo” [2]. Assim, é possível perceber de um ponto de vista comportamental, a razão da eficácia desse método introduzido por Maquiavel.

Moreira e Medeiros ainda trazem a ideia de que o tamanho do esquema teria efeito sobre o número de respostas, sendo o esquema a ilustração de toda a contingência que envolve as respostas e os reforçamentos. O tamanho do esquema está diretamente relacionado à distância intervalar entre os reforçadores, sendo menores aqueles esquemas que tem menor distância entre eles e vice-versa. Segundo os autores, nos esquemas de intervalo, quanto maior o valor do esquema (tamanho do esquema), maiores são as pausas após o reforço, pois isso facilita a discriminação do tempo, o que causa a diminuição das repostas [2].

Quando o rei oferece as coisas boas ao povo “de uma só vez”, o intervalo entre os reforços é maior, sendo assim um esquema maior e consequentemente com uma menor taxa de respostas. No entanto se o rei oferece as coisas boas aos poucos, esse intervalo entre os reforçadores é menor e o esquema também, aumentando a taxa de respostas.

O modo como Maquiavel usa da punição, quando cita como o rei deve “fazer as coisas ruins” com o seu povo, também pode ser estudado dentro das diretrizes da análise do comportamento, assim como vários outros métodos de “O Príncipe”. No entanto, mantivemos o foco em apenas uma das propostas do livro, deixando assim em aberto a possibilidade de novos estudos sobre esse autor tão importante e seu suposto “perfil behaviorista”.

Referências Bibliográficas:

[1] Maquiavel, N. (2010). O príncipe. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras.

[2] Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2007). Esquemas de reforço. In: Princípios Básicos de Análise do Comportamento (Cap. 7, pp. 117-135).

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Escrito por Sávio Broetto da Silva

Graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo.
Contato: saviobdasilva@gmail.com