A falta em tempos de pandemia

Foto de: Rogéria Bastos, España

Dizem que o sentimento passa e realmente isso é um fato, mas na ausência de alguém querido, ele costuma chegar tão forte, que as pessoas costumam dizer que sentem no corpo. Alguns dizem sentir no peito, alegam que o coração parece apertar e costumam lamentar, ou como dizia Carlos Drummond (1989), “lamentar ignorante a falta.” Contudo, o poeta tinha razão ao dizer que “não há falta na ausência”, porque, realmente, quando a saudade chega e as pessoas dizem senti-la no próprio corpo, talvez seja apenas um estar em contato com a pessoa que você ama e um meio de sentir que estão juntos, no amor, na “distância” e em um só lugar, que é em você. Contudo, provavelmente, a saudade, a falta, o temor da ausência, tudo isso aconteça para dizer que existe amor e que o outro é importante para você.

Atualmente, muitos estão distantes de pessoas que lhes são queridas e isso tem um custo emocional bem elevado. Talvez, o choro venha para dizer que está doendo e que a dor grita, informando que o toque e um simples abraço fazem falta, mas é preciso saber que está tudo bem se sentir assim. Porém, se concentrar na falta pode contribuir para o surgimento de sentimentos de decepção diante daquilo que já conquistou e que está ao seu alcance (Harris, 2011/1962). Talvez, valorizar o aqui e agora, seja a melhor alternativa, uma vez que ele é literalmente, um presente.

Lembre-se que os sentimentos e as dores passam, assim como a quarentena também irá passar. Os questionamentos são: como cada um sairá dela? Se abraçarão mais? Serão mais empáticos? Como ficará a compaixão e autocompaixão? E os valores, irão mudar? Passará a observar o seu aqui e agora com mais  carinho, ao saber que esse é o único controle que você tem na vida? São tantas perguntas sem respostas. A única certeza é que será preciso tudo isso passar para essas perguntas serem respondidas. Querer respostas do que está por vir e daquilo que não depende de você, poderá gerar e aumentar sentimentos que não são agradáveis, como a ansiedade por exemplo, que geralmente contribui negativamente para que o auto cuidado se torne bem mais sofrido e com um custo emocional bastante elevado.

Em tempos de isolamento físico, retomar aquilo que é essencialmente importante na nossa vida, no que diz respeito às nossas emoções,  nossos objetivos, significa aceitar a nossa vulnerabilidade (Brown, 2012/2013) e  como esse isolamento a coloca em evidência.  As relações se adequaram e se curvaram diante da tecnologia. Ah! Tecnologia muitas vezes criticada e agora bem quista e desejada. Vulnerável? Sim. Por ser tenso, o passado parece fazer falta; e o futuro, quanta incerteza! Realmente, Brown tinha razão ao afirmar que a vulnerabilidade é incerta, nos coloca em risco e nos deixa emocionalmente expostos.

Nesse momento de pandemia, seja o seu(a) maior amigo(a), se ame mais, aceite a sua vulnerabilidade e não lute contra os seus sentimentos, porque eles, assim como esse isolamento, irão passar. Tente separar o que você sente, daquilo que você realmente é, porque está tudo bem sentir o que essa pandemia evoca em você. De acordo com Skinner (2000/1953), as vezes procuramos induzir respostas emocionais para contrapor outras, ou simplesmente para equilibrar o efeito que elas evocam em nós. É  incômodo e, às vezes, parece não ter fim, mas quando esses sentimentos passarem, você continuará sendo você e que, apesar de tudo isso, você esteja forte e preparado(a) para recomeçar.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Andrade, C. D. (1989) .Obra poética, Volumes 4-6. Lisboa: Publicações Europa-América.

Brown, B.(2013). A Coragem de Ser Imperfeito. (Joel Macedo, Trad.) Rio de Janeiro: Sextante. (trabalho original publicado em 2012).

Harris, R. (2011 ). Liberte-se: evitando as armadilhas da procura da felicidade. (H.M.A. Nascimento, Trad.). Rio de Janeiro: Agir. (trabalho original publicado em 1962).

Skinner, B.F. (2000). Ciência e comportamento humano. (R. Azzi & J. C. Todorov, Trads.). São Paulo: Martins Fontes. (trabalho original publicado em 1953).

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Rogéria Bastos

Escrito por Rogéria Bastos

Psicóloga e Mestre em Psicologia e Educação, pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), licenciada em Pedagogia (Michelângelo/UDF). Possui Formação em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT-ACL) pela Escola de Educação Permanente (EEP) - USP-HCFMUSP, Formação em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT-ACL) pela Atitude Cursos, Formação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC). Pós-graduada em Psicopedagogia pelo Instituto de Ensino Superior de Brasília (IESB), Pós-graduada em Educação à Distância pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e Formação em Mindfulness Funcional pela Faculdade de Tecnologia de Curitiba (FATEC). É facilitadora do Programa de Qualidade na Interação Familiar (PQIF), supervisora clínica particular, tem experiência na área de Psicologia, com atendimento infanto-juvenil, adultos, casais e famílias. Experiência na área docente, além de compor uma Equipe Especializada de Apoio à Aprendizagem da Secretaria de Educação do Distrito Federal.
Contato: bastos.rogeria@gmail.com